A relação entre espiritualidade e ciência é o tema do novo livro de Marcelo Gleiser, que a Editora Record, do Grupo Editorial Record, lançado em junho. “O Caldeirão Azul ” reúne ensaios que exploram o fascínio do homem pelo desconhecido e pelos mistérios da humanidade. O autor mistura conceitos extraídos da biofísica, da física quântica e da filosofia para propor uma aproximação entre o maravilhamento proporcionado tanto pela crença espiritual quanto pela investigação científica. A busca de Gleiser pela aproximação entre estas duas dimensões do conhecimento lhe valeu o Prêmio Templeton, uma espécie de “Nobel” da espiritualidade. “O que pode surpreender a muitos – especialmente aos que veem cientistas por meio do estereótipo do racionalista frio – é que essa atração pelo mistério, em essência, uma atração espiritual pela Natureza, inspira muitos cientistas em seu trabalho. Não é Deus que se busca no questionamento científico, mas a transcendência do humano, a busca por uma dimensão além do cotidiano que dá sentido à nossa busca por sentido”, escreve Marcelo Gleiser em O Caldeirão Azul. 

Os ensaios reunidos em O Caldeirão Azul são fruto da reflexão de Marcelo Gleiser sobre as questões que considera mais relevantes para o momento atual: nossa relação com o planeta e suas criaturas, com os membros da sociedade em que vivemos, e com a tecnologia, que está transformando, com velocidade impressionante, quem somos e como nos relacionamos. O tema que conecta os textos do novo livro de Gleiser é simples: a visão da ciência como produto da nossa capacidade de nos maravilhar com o mundo toda vez que nos engajamos com o mistério da criação.

Somos criaturas peculiares, animais curiosos, capazes de imaginar o infinito, e ao mesmo tempo inspirados e perplexos pelo que não compreendemos. Na essência do conhecimento científico, encontramos o mesmo ímpeto que move o espírito religioso: desejamos lidar com nossas questões existenciais mais profundas, a nossa origem, a nossa vida, a nossa morte.

 

Em O Caldeirão Azul, tais temáticas foram divididas em quatro partes: ciência e espiritualidade; a importância de ser humano; um mundo em crise; e o futuro da humanidade. Não escapam da investigação de Gleiser questões urgentes como o aquecimento global e o aprendizado de máquina. No artigo ‘Lições de sobrevivência que ETs me ensinaram’, Gleiser constrói uma metáfora de tom irônico sobre como deveriam ser as bases de uma relação mais sustentável entre os seres humanos e a própria Terra.

Gleiser lembra que a ciência, aliada à nossa busca por respostas e nosso fascínio pelo mistério que nos cerca, pode ser usada tanto como ponte para um mundo melhor, como para construir a pior distopia imaginável. E nos convida a refletir – e decidir – sobre o futuro que queremos para nós, respeitando as diferenças de cada um e estando abertos para aprender com os que pensam de outras formas. Temos muito trabalho pela frente. E é preciso avançar.


O Caldeirão Azul

  • AUTOR: Marcelo Gleiser
  • EDITORA: Editora Record
  • Páginas: 249
  • Preço: R$ 49,90

Quem é Marcelo Gleiser === É um cientista de renome mundial e professor titular de filosofia natural e de física e astronomia na Dartmouth College. É autor, entre outros livros, de A ilha do conhecimento, Criação imperfeita, A dança do universo, O fim da Terra e do Céu e A simples beleza do inesperado, os três últimos vencedores do Prêmio Jabuti. Foi articulista da Folha de S.Paulo e participa frequentemente de documentários para a TV no Brasil e no exterior. Em 2019, ganhou o Prêmio Templeton, considerado o “Nobel da espiritualidade”, um dos mais prestigiosos do mundo. É o primeiro latino-americano a recebê-lo.

Quem é a Editora Record === Um dos maiores conglomerados editoriais da América Latina e com o maior catálogo no segmento dos não-didáticos, o Grupo Editorial Record tem atualmente cerca de oito mil títulos e lança aproximadamente 40 livros por mês. Além da Editora Record, fundada em 1942 por Alfredo Machado e Décio Abreu como uma distribuidora de quadrinhos e outros serviços de Imprensa, integram o grupo os selos Galera e Galerinha, a Editora Bertrand Brasil e o selo Difel; as editoras Alfredo Machado (e o selo Best Business), as Edições BestBolso, Rosa dos Tempos, Nova Era, Viva Livros. Com a marca da bibliodiversidade, o Grupo publica livros de ficção; narrativas históricas e científicas; ensaios culturais, sociológicos, literários e filosófico; reportagens; romances policiais e de suspense, literatura infantil e quadrinhos. Com um parque gráfico próprio, composto pelo Sistema Poligráfico Cameron, um moderno equipamento de impressão, único no continente, saem até 100 livros de 200 páginas por minuto.


                Trechos do livro “O Caldeirão Azul”

Tensão criadora: uma reflexão para um novo século === O Universo existe sob tensão. Das menores partículas de matéria às órbitas de planetas e galáxias, ao próprio Universo como um todo, vemos uma dança de transformação, tensão em movimento, uma forma de energia virando outra. Sem essa tensão, sem a energia potencial que está armazenada nela, nada acontece. Sem tensão, tudo fica igual, pois não existe mais o potencial transformador. Tudo o que vemos na Natureza, as infinitas transformações que ocorrem todos os dias em todas as escalas — dentro de você, ao seu lado, nos céus, no centro da Terra, numa galáxia distante — são produto dessa grande inquietude cósmica, da tensão criadora que existe em tudo.

Flertando com o desconhecido === “Muita gente acha que a ciência é uma atividade sem emoções, destituída de drama, fria e racional. Na verdade, é justamente o oposto. A premissa da ciência é a nossa ignorância, nossa vulnerabilidade em relação ao desconhecido, ao que não sabemos. A ciência é um flerte com o não saber, com o desconhecido que nos cerca. Na pesquisa, existe sempre uma sensação de insegurança, de não termos certeza se estamos indo na direção certa. Muitas vezes, quando experimentos revelam novos aspectos da Natureza que não haviam sequer sido conjecturados, a enorme surpresa, a sensação de tatearmos no escuro, pode levar ao desespero. E agora? Se nossas teorias não podem explicar o que estamos observando, como ir adiante? Nenhum exemplo na história da ciência ilustra melhor esse drama do que o nascimento da física quântica, que descreve o comportamento dos átomos e das partículas subatômicas, e que está por trás de toda a revolução digital que rege a sociedade moderna”.

Tributo ao fracasso ===  Nada melhor do que fracassar para ganhar uma dose de humildade nos confrontos da vida. O fracasso nos ensina a sermos tolerantes com nossas limitações e, por consequência, com as limitações dos outros. Se tudo que fizéssemos fosse um grande sucesso, como poderíamos entender e ter empatia pelos que falham? O fracasso é essencial para a empatia, e a empatia é essencial para uma sociedade saudável.

Embora existam exceções, acredito que os melhores professores sejam aqueles que tiveram que trabalhar duro quando eram alunos, aqueles para quem o sucesso custou muito suor. A dedicação extra para entender o material do curso quando eram estudantes garante que, quando forem ensinar, tomarão mais cuidado, entendendo melhor as dificuldades dos alunos. Sem o fracasso, teríamos apenas vencedores, sem paciência com aqueles que precisam de um esforço maior para ter sucesso. Aliás, sem o fracasso, o sucesso não teria qualquer valor.

Lições de sobrevivência que ETs me ensinaram ===  Os alienígenas teriam entendido que a disparidade financeira (se tivessem uma economia) e a manipulação cultural levam à pobreza e à instabilidade social, ambas as causas dominantes da predação planetária; e que, para garantir sua sobrevivência em longo prazo, precisariam erradicar a desigualdade social. Teriam, portanto, criado valores morais que garantissem a igualdade social, dividindo recursos naturais e econômicos de forma justa e equilibrada. Por outro lado, não teriam erradicado a competição, por entenderem ser essencial para a inovação e a felicidade individual e coletiva; teriam, sim, criado mecanismos para assegurar que todos tivessem as mesmas oportunidades de atingir o sucesso. Saberiam que uma sociedade justa não precisa, ou não deve, ser estéril. Teriam entendido que essas metas socioeconômicas pedem o sacrifício dos que detêm mais recursos, mas saberiam, também, que esses sacrifícios seriam temporários, garantindo a sobrevivência de todos. Teriam criado, em longo prazo, uma sociedade com certo nível de disparidade — pois seus intelectuais já teriam entendido que a igualdade total leva a uma distopia — baseada na dignidade, no respeito e na justiça.

Aprendendo com as crianças === Para uma criança, o mundo é um grande laboratório, cheio de experiências a realizar, explorando como os objetos interagem entre si, como os animais vivem e comem, como as plantas crescem e morrem. Toda criança nasce cientista, testando hipóteses e experimentando para aprender. Deixar algo cair no chão para ver se quebra, encher um copo com um monte de fluidos e comidas fazendo “poções mágicas”, pôr coisas no fogo para ver como queimam, misturar tintas de cores diferentes, fazer aviões de papel para ver os que voam melhor, colecionar insetos, tudo isso faz parte da exploração científica do mundo. A Natureza se abre como um livro quando a curiosidade pode voar livremente. Até, claro, os adultos chegarem.


<<Com apoio de informações/fonte: Ass.Imprensa Editora Record / Mariana Moreno e Rafael Sento Sé >>

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