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Na Vila Guilherme, uma rua sem asfalto convive com a modernidade da cidade.

É inacreditável. Em pleno Século XXI, com uma cidade em toda evolução, ainda temos uma rua sem asfaltamento. Sim, na terra com um fino cascalho e pedritas. E mais: uma rua que está entre a Rua Galatéa e a Av. Zaki Narchi, em plena Vila Guilherme, na Zona Norte. O nome da rua é até sugestivo: Pedranópolis. O entorno são ruas e avenidas asfaltadas, próximas ao Expo Center Norte, Parque da Juventude, Shopping Center Norte e da Avenida Luiz Dumont Villares – a “velha Avenida Nova de mais de 30 anos”, que está totalmente asfaltada.

Esta triste e absurda realidade está retratada na reportagem, “Sem asfalto – Nas periferias de São Paulo, ruas não tem pavimentação há 50 anos”, publicada no Portal 32xSP (*), com reportagens de Eduardo Silva, Giacomo Vicenzo, Liana Nunes, Miréia Lima e Sidney Pereira – que podem ser conferidas no original – clique aqui.
Perto da cidade e longe dos olhos === E a Rua Pedranópolis não está assim tão distante do centro da cidade e não está classificada como periferia. Mas as várias gestões anteriores e a atual – com seu dinâmico projeto “Asfalto Novo” – não deram conta da responsabilidade pública. Segundo descreve o repórter Sidney Pereira, ali naquela situação o fator saúde é conversa de todo dia: pneumonia, bronquite, alergias, rinite. A lista de doenças respiratórias “que aflige a vida dos moradores da pequena rua Pedranópolis é extensa”. Desde que a família da dona de casa Elisabeth Rocha, 73 anos,  instalou-se no local, há mais de 50 anos, a via jamais foi asfaltada e fica enlameada, na época das chuvas, ou tomada pelo pó, quando o clima fica seco.
Doenças, remédios e paciência === A idosa conta que está se tratando de uma pneumonia, há um mês. “Acabei de vir do posto de saúde para pegar remédio e também comprei mel. Meus dois netos, de 6 e 12 anos, fazem inalação direto. É muita poeira”, diz. Ela alega que a situação é agravada pelo tráfego intenso de caminhões, ao lado, poluindo o ar e provocando até rachaduras nas residências.
Quando chove, vira lagoa === Nos meses chuvosos, todos sofrem com as inundações. O imóvel da dona de casa tem manchas de umidade e mofo nas paredes. O vigilante José Luiz Monteiro, 59, mantém um pequeno depósito no local e também reclama. “Aqui vira uma lagoa quando chove. Tive que colocar um degrau na porta para segurar a água””, conta ele.

Blá-blá-blá sem solução === Segundo Elisabeth, sua família já fez diversos pedidos de pavimentação da rua na subprefeitura da Vila Maria / Vila Guilherme / Vila Medeiros, sem resultado.  À reportagem do Portal 32xSP, a subprefeitura informou, em duas ocasiões diferentes, que a via seria incluída no plano de pavimentação da prefeitura “o quanto antes”. As providências, no entanto, nunca aconteceram – e ao que se percebe, vai demorar bastante.

O que tem na cidade === A cidade de São Paulo possui 17,2 mil de quilômetros de vias pavimentadas e cerca de 65 mil logradouros registrados (entre ruas, avenidas, becos, praças, viadutos e outros), de acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (SMSO). O órgão também aponta a capital paulista como referência nacional em pavimentação.
Mas falta asfalto com ruas esburacadas === Por outro lado, assim como acontece na rua Pedranópolis, outras regiões do município também enfrentam problemas provenientes da falta de asfaltamento.  Ruas esburacadas, vielas de terra batida ou partes de bairros inteiros sem asfaltamento são cenários comuns no dia a dia dos paulistanos que residem, principalmente, em bairros mais periféricos. << Ali mesmo ao lado da Pedranópolis, a Rua Galatéa está toda irregular, com altos e baixos, e buracos >>
O tapa-buraco demora === Outro problema são solicitações de tapa-buraco que demoram, em média, 49 dias  para serem atendidas (período base: 2013-2016) – isso quando o atendimento acontece. Considerando as solicitações pendentes e acumuladas antes da gestão do ex-prefeito João Doria (PSDB) em 2017, o tempo médio atual para atendimento era de 100 dias. (Dados:Plano de Metas-2017/2020).
O que se fêz === Nos últimos meses de 2018, o investimento da administração municipal em obras de pavimentação tem consumido cerca de 25% das receitas correntes arrecadadas na capital paulista, como Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e Imposto sobre Serviços (ISS). Os dados são da Câmara Municipal de São Paulo (veja o documento mais recente, de agosto de 2018).
Os cuidados contínuos == Ao longo de 2017, esse número se manteve como a segunda principal despesa do município, atrás apenas da quitação de precatórios com cerca de 30% do investimento. Já para o geógrafo Tomás Wissenbach,  que é consultor da Fundação Tide Setubal, a pavimentação na cidade é uma atividade de manutenção contínua, que deve ser bem distribuída ao longo do tempo, sem sobressaltos. “Isso vinha acontecendo, comprometendo em média 2% dos investimentos, o que me parecia adequado. Agora, atinge quase 20% – o que revela preferência da administração municipal por visibilidade no curto prazo. Certamente esse montante cresceu em detrimento de outras áreas essenciais”, comenta ele.
Wissenbach também diz que a aplicação de pavimentação e recapeamento deveria ter cobertura em toda a cidade, priorizando áreas mais desprovidas de infraestrutura urbana básica e promovendo adaptações em regiões ambientalmente frágeis.
“Junto a isso, o recapeamento deveria priorizar as faixas e corredores de ônibus, pois além de transportar a maior parte da população paulistana, sofrem maiores desgastes em função do peso dos veículos”, analisa o geógrafo.
A vitrine do governo === Outro projeto de alto investimento é o programa Asfalto Novo, principal vitrine da gestão Doria, que teve investimentos de R$ 550 milhões e a proposta de recapear, até 2020, mais de 400 km de ruas e grandes avenidas na cidade de São Paulo.  Do valor total investido, 57% vêm do dinheiro arrecadado com multas de trânsito e o restante provém do Tesouro Municipal, de financiamentos e de investimentos da SPTrans com foco em corredores de ônibus.
Mais investimentos em propaganda === De 2017 a 2018, a Prefeitura de São Paulo também dobrou seus gastos com publicidade. No primeiro semestre deste ano, a administração gastou R$ 73,8 milhões em peças publicitárias, ante R$ 36,3 milhões do ano passado.
Somente o Asfalto Novo consumiu R$ 28,9 milhões desses gastos (39%), sendo exibido em campanhas de TV (aberta e paga), rádio, jornais, internet e cinema. Em detrimento disso, ações de divulgação de temas como educação, combate aos focos do mosquito transmissor da dengue e a reforma da previdência municipal receberam pouca atenção – R$ 2,99 milhões, R$ 2,98 milhões e R$ 2,77 milhões gastos por campanha, respectivamente.
Apesar do alto gasto com propaganda, por diversas vezes os serviços de recapeamento do Asfalto Novo apresentaram falhas e irregularidades, como buracos, vias entregues com desníveis e bueiros tapados parcial ou totalmente. Tais problemas foram pontados por vistorias do TCM (Tribunal de Contas do Município).

Nota da Redação: O DiárioZonaNorte adequou a reportagem com o foco local – Vila Guilherme/Zona Norte. Já a equipe do Portal 32xSP buscou a pauta mais ampla, com problemas semelhantes no Bairro Vargem Grande (Parelheiros), Rua dos Pinheiros – Barragem ( Parelheiros ), Parque das Nações (Jaraguá) e Av. Souza Ramos (Cidade Tiradentes) – que podem ser conferidas na íntegra no link: https://32xsp.org.br/especial/ruas-sem-asfalto/).

Quem é ===  O 32xSP é um projeto de comunicação e mídia independente, cujo nome proposto nasceu do número de subprefeituras (agora prefeituras regionais) da cidade de São Paulo.Desde 2016, por meio do portal www.32xsp.org.br, são publicadas reportagens diárias sobre as 32 prefeituras regionais do município, cobrindo principalmente, a partir do ponto de vista dos cidadãos, as questões relacionadas às desigualdades no acesso à infraestrutura e serviços públicos, o que está funcionando nos bairros, o que não, como o poder local tem respondido às demandas por direitos e serviços, além dos mecanismos e espaços públicos para participar da melhoria da qualidade de vida nos bairros que compõem a sua administração local. A iniciativa é coordenada conjuntamente pela Rede Nossa São Paulo e pela Agência Mural de Jornalismo das Periferias, com apoio da Fundação Ford.