por Aguinaldo Gabarrão (*)

Uma história que fala do amor de um casal pelo filho, e, em especial, do sentimento paterno elevado ao mesmo patamar sempre destinado a mulher, é o que conduzirá a trama do ótimo filme “Meu Querido Filho”.
Temas como renúncia e apego, amor e egoísmo, se revezam em sentimentos contraditórios, habilmente roteirizados por Mohammed Ben Attia, diretor de diálogos simples, porém revestidos de profunda humanidade.
A história chama a atenção também pelas particularidades da sociedade árabe, às voltas com sua juventude seduzida por grupos radicais.
O núcleo familiar === O motorista Riadh (Mohamed Dhrifestá) que trabalha no porto de Tunis está prestes a se aposentar. Com Nazli (Mouna Mejri), ele forma um casal unido em torno de seu único filho, Sami (Zakaria Bem Ayed), que sofre com repetidas enxaquecas enquanto se prepara para os exames de ingresso ao ensino médio. Com a ajuda dos pais a saúde do rapaz melhora, porém, pouco depois ele desaparece.
O diretor Ben Attia estrutura a história com foco no núcleo familiar e revela o desgaste no relacionamento do casal ao longo dos anos. Pai e mãe se apoiam no atendimento das necessidades do filho e não enfrentam, diretamente, as próprias dificuldades do casamento. Com o desaparecimento do rapaz, a desestruturação familiar é potencializada.
Quando o amor sufoca === Riadh, homem simples e acostumado ao trabalho pesado no caís, se conecta a esse mundo inóspito da internet, fenômeno que invadiu mundo afora boa parte dos lares. Nas redes sociais, ele busca entender o problema da enxaqueca do filho.
Mas, a maneira insistente com que Riadh procura auxiliar Sami, cercando-o de todos os cuidados possíveis, amplifica a pressão sobre o rapaz, que por sua vez, inseguro com o futuro e em sua busca existencial, tomará uma decisão de conseqüências importantes.
E a mão competente do roteirista planta a dúvida no público quanto a relação pai e filho: até onde as ações paternas são movidas pelo amor e, num determinado ponto limítrofe, passam a refletir o sentimento contrário, de egoísmo?
Diretor Mohamed Ben Attia
Apoio de peso ===  A co-produção mais uma vez conta com o apoio dos irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne, diretores que ganharam duas vezes a Palma de Ouro em Cannes, com os filmes Rosetta (1999) e A Criança (2005). A dupla já havia co-produzido “A Amante” – crítica publicada em 31.05 no DiárioZonaNorte — reveja aqui – outro filme bem sucedido, também escrito e dirigido por Bem Attia.
Os atores Mohamed Dhrifestá e Mouna Mejri, respectivamente, pai e mãe de Sami, conseguem transitar com muita competência no universo criado pelo diretor, que sempre conduz seus atores para interpretações sem qualquer tipo de afetação. E Dhrifestá brilha, ao trazer para a sua personagem a dimensão conflitante do amor e do apego, sentimentos comuns à paternidade e que não reconhecem fronteiras físicas e culturais.
Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA
MEU QUERIDO FILHO (Título original: Weldi) – Distribuição: Pandora Filmes
Direção e Roteiro: Mohammed Ben Attia / Direção de Fotografia: Frédéric Noirhomme / Designer de produção: Fatma Madani / Montagem: Nadia Ben Rachid / Música: Omar Aloulou / Produção: Dora Bouchoucha Fourati, Luc and Jean-Pierre Dardenne, Nadim Cheikhrouha / Co-produção: Arte France Cinéma / Estúdio: Nomadis Images, Les Films du Fleuve, Tanit Films
Elenco: Mohammed Dhrif, Mouna Mejri e Zakaria Ben Ayed, Imen Chérif, Taylan Mintas, Tarik Copti
Gênero: drama / Duração: 1 hora e 44 minutos / Idioma: Árabe / Cor: colorido
Classificação indicativa: 12 anos / País: Tunísia, Bélgica, França e Catar / Ano de Produção: 2018
Lançamento: 3 de janeiro de 2019 (estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Aracaju, São Luís, Teresina, Florianópolis, Santos, Curitiba e Porto Alegre)

(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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