por Aguinaldo Gabarrão (*)

Educar um filho não é, definitivamente, uma tarefa simples. Imagine uma mãe com atitudes infantilizadas e dificuldades de compreender a dimensão do seu papel, deixando à filha de oito anos, responsabilidades de um adulto.

Esta inversão de papéis e, as conseqüências das escolhas feitas pela mãe, ajudam a construir a boa e incômoda história de Meu Anjo, filme que fez parte da seleção oficial da Mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes 2018.

Marlène (Marion Cotillard) não dispensa muita atenção a sua filha Elli (Ayline Aksoy-Etaix), porque está mais interessada em bebedeiras, festas e homens. E tudo se complica quando ela vai com a menina numa boate e depois, para ficar com um homem, manda a criança sozinha para casa. Os dias passam e Marlène não retorna para o lar, limitando-se a enviar recados, deixando a filha entregue à sua própria sorte.

“O ouro é só barro” === Logo na apresentação das personagens, a diretora e roteirista francesa Vanessa Filho, pontua o sentido do título do filme: a pequena Elli canta uma música para a mãe que dorme pesadamente após uma daquelas noitadas. Num dos trechos da canção diz: “… o ouro é só barro”.

O glamour vivido pela mãe nada mais é do que um artifício para a fuga de uma existência sem direção, em que a singela letra cantada pela filha, capta este estado de coisas.

“Mamãe te ama, sabia?” ===  Marlène, inconscientemente, sente-se culpada pelas atitudes que toma em relação à filha. Prova disso, é sua necessidade constante de reafirmar à criança seu amor de mãe, sua preocupação em dizer que sempre pensa nela. Há um abismo íntimo que dificulta a ela transmutar em atitudes o seu discurso.

Essa dicotomia de sentimentos lança a mãe num processo cada vez mais distanciado da filha, e Elli, carente do amor materno e obrigada a ter o controle sobre a sua própria vida, começa a imprimir para si, comportamentos da mãe, alguns deles destrutivos, o que irá complicar sua vida com seus colegas na escola infantil.

O roteiro mais uma vez é certeiro na tratativa psicológica da reação de Elli, sem suporte afetivo, acaba por projetar na figura do desconhecido Julio (Alban Lenoir), a figura do pai que ela não tem e a confusão em sua cabeça na maneira de lidar com essa atração, quando ela diz “amá-lo”.

Sem rumo === A atriz Marion Cotillard (Oscar de Melhor Atriz em Piaf – Hino ao Amor – 2007), consegue trazer a dimensão contraditória deste amor torto, sem em nenhum momento criticar a personagem, o que permite aprofundar os sentimentos que movem Marlène, assegurando credibilidade às suas ações que refletem sua angústia existencial de quase negação ao papel de mãe.

A pureza de Elli, personificada pela atriz mirim Ayline Aksoy-Etaix, é outro ponto alto. Dirigir crianças é tão difícil quanto educá-las e a diretora Vanessa Filho, soube extrair o melhor da alma infantil de Ayline, sem que em nenhum momento ela seja mais do que tem que ser: uma criança.

Pulso firme ===  A trama, bem conduzida pela diretora, apoiada na ótima construção dos diálogos por Diastème e François Pirot, segue uma aparente sequencia repetitiva quanto aos comportamentos da mãe, mas que acabarão por cruzar-se novamente com a filha, ponto de alta tensão no desfecho da história.

O filme Meu Anjo, para além da reflexão quanto ao desafio de educar um filho, oferece outras possibilidades de leitura nessa relação pais e filhos, afinal, o complexo universo infantil, exige o empoderamento daqueles que se assumem como pai ou mãe.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

MEU ANJO (Título original: Gueule d’ange)  –  Distribuição: Imovision

Direção e Roteiro: Vanessa Filho, Diastème, François Pirot / Direção de Fotografia: Guillaume Schiffman / Produção de Arte: Nicolas Migot / Música: Olivier Coursier, Audrey Ismael / Figurinos: Ariane Daurat / Montagem: Sophie Reine / Produção: Stéphane Célérier, Christine De Jekel, Valérie Garcia, Ly Nha Ky, Antoine Lafon, Carole Lambert, Marc Missonnier

Elenco:  Marion Cotillard, Ayline Aksoy-Etaix, Alban Lenoir, Amélie Daure, Mário Magalhães, Nade Dieu, Stefano Cassetti, Stéphane Rideau, Rayan Ounissi-Herzog

Gênero: Drama / Duração: 1 hora 48 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 12 anos / País: França / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 25 de outubro de 2018


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte e nem de sua direção.


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