por Aguinaldo Gabarrão (*)

Nestes tempos de fake news (notícias falsas) na qual pessoas compartilham informações que não encontram sustentação na realidade e lançam ao fosso personalidades, conhecidas ou não, com o único objetivo de desmoralizá-las moral e intelectualmente, é imprescindível que a arte, nas suas formas distintas de expressão, contribua para a reflexão da sociedade e, conseqüente tomada de decisão para enfrentar e coibir essas ações, restabelecendo a verdade dos fatos.

O filme Maria Madalena reacende essa questão, embora não seja o seu foco apresentar as conseqüências das inverdades cometidas contra alguém, mas redimensionar a figura histórica de Maria de Magdala como colaboradora ativa de Jesus, além de desfazer a milenar fake news de que era prostituta.

As inverdades papais === Foi o Papa Gregório Magno (540 – 604), que proferiu a crença de que Madalena era meretriz. Baseou-se nos Evangelhos para dar foro de verdade a sua ideia, afirmando que as diferentes mulheres citadas pelos evangelistas eram a mesma personalidade: a pecadora (Lucas 7:36-38); Madalena que tem sete demônios expulsos(Marcos 16:9) e Maria de Betânia (João 12: 1-3).

Assim, a ideologia papal, preconceituosa e claramente machista, prevaleceu, foi multiplicada por seus representantes e absorvida pelo vulgo ao longo dos séculos, que por sua vez, ainda somou a essas distorções, a ideia errada de que a adúltera que é levada diante do Cristo para ser apedrejada, também seria Maria Madalena…

O que move Madalena === Madalena é uma jovem que busca uma maneira de viver diferente daquela para a qual todas as mulheres de sua época foram destinadas: casar, procriar e cuidar. Sua insatisfação e incompatibilidade num mundo machista, a aproximam da figura desconcertante do Cristo e, a partir daí, sua vida seguirá um rumo que sua família jamais desejou.

O roteiro, escrito por Helen Edmundson e Philippa Goslett (Poucas Cinzas – Salvador Dali), constroem a personalidade da jovem de Magdala. Aparentemente frágil, mas dona de grande vivacidade e capacidade de enfrentamento de situações diferentes: na pesca; no difícil parto de uma mulher; nos embates familiares; na exigência de casar-se com um homem que não conhece. Maria é confrontada seguidamente pelos limites impostos por uma sociedade patriarcal.

O demônio habita o seu corpo === Pensar e agir de forma diferente do conjunto a faz ser julgada pelo grupo social como sendo uma mulher possuída pelo demônio. Figura alegórica, o “tinhoso” é a metáfora da ignorância e inconformismo daquela sociedade retrógrada, em perfeita conexão com os extremismos contemporâneos.

Portanto, ao tentar expulsar o demônio do seu corpo, o recado é claro: é preciso matar toda e qualquer iniciativa que seja diferente, que ameace o poder estabelecido. Paradoxalmente, ao expulsar o demônio, portanto as ideias, o que se quer é sufocar sua alma e, por conseguinte, de todas as outras mulheres.

Quem é esse Jesus em sua vida? === A direção de Garth Davis (Lion: uma jornada para casa), conduz a trama de maneira a reforçar essa fortaleza em que se transforma Madalena, interpretada com profundidade por Rooney Mara (Carol), ao conhecer Jesus (Joaquin Phoenix – Gladiador), personalidade fora do contexto, questionador e que abria para a jovem, uma perspectiva completamente diferente daquele mundo em que estava apartada por ser mulher.

O diretor Garth Davis ainda teve o cuidado de extrair na interpretação de Phoenix, a naturalidade e moderação à figura de Jesus, sem aquela afetação distanciada e teatral que nos acostumamos a ver em outros atores.

Escolher seu próprio destino === Inserida naquele seleto grupo, Madalena ganha status de principal colaboradora do Cristo, algo explosivo para os demais apóstolos, entre eles Pedro, o ótimo Chiwetel Ejiofor (12 anos de Escravidão), que se vê, atônito, como provavelmente ficaram todos os prelados que sustentaram a versão pouco convincente sobre Madalena.

O filme resgata a relevância de Maria Madalena por apresentar uma mulher que além de fazer suas próprias escolhas, igualmente despertou em outras mulheres de sua época, o desejo de tomar o poder sobre si mesma, sobre seus atos, seus desejos.

 FICHA TÉCNICA

MARIA MADALENA (Título original: Mary Magdalene) – Distribuição: Universal Pictures

Direção: Garth Davis / Roteiro: Helen Edmundson e Philippa Goslett / Fotografia: Greig Fraser / Trilha Sonora: Hildur Guonadóttir, Jóhann Jóhannsson

Elenco: Rooney Mara, Joaquin Phoenix, Chiwetel Ejiofor, Tahar Rahim, Lubna Azabal, Ariane Labed  

Gênero: Drama / Duração: 2 horas

Classificação indicativa: 12 anos / País: Reino Unido e Irlanda do Norte / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 15 de março de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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1 COMENTÁRIO

  1. Obrigado, Vander. O objetivo era estimular essa reflexão e o filme “Maria Madalena” permitiu essa análise. Abraço!

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