por Aguinaldo Gabarrão (*)

A frase de impacto “a história por trás do nome”, logo após o título “Kardec”, sugere ao público um filme cuja proposta é apresentar algo que, até então, não era conhecido ou pouco divulgado acerca da personalidade retratada.

Para espíritas, pode representar algo; afinal, tem-se a oportunidade de conhecer novidades a respeito do seu maior representante. Porém, ao resto do mundo pouco ou nada pode significar, se a história não for bem contada.

E, sob este aspecto, as escolhas feitas no roteiro dificultam o entendimento do público leigo, que nada sabe sobre o Espiritismo e muito menos sobre o pedagogo e homem de ciência Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804 – 1869), que adotou o pseudônimo de Allan Kardec.

Kardec segundo o jornalista ==== O pedagogo e homem de ciência Hippolyte Rivail (Leonardo Medeiros), após encerrar suas atividades como professor, se vê às voltas com os fenômenos das mesas girantes. Inicialmente incrédulo, resolve participar de uma sessão e, a partir dali, se depara com forças estranhas que o levarão a uma profunda investigação, com repercussões em toda a Europa.

O filme, baseado em fatos reais, teve como fonte primordial o livro “KARDEC – A Biografia (2013)”, do jornalista Marcel Souto Maior, que apresenta uma visão particular e instigante do “codificador” do Espiritismo.

Um novo ciclo === O autor do livro centra sua pesquisa em dois aspectos: o primeiro envolve as motivações de um homem de ciência que, aos 50 anos, inicia um novo ciclo, a partir do estudo das manifestações físicas das mesas girantes, consideradas pela intelectualidade meras brincadeiras de salão.

O segundo aspecto é buscar a humanização de uma personalidade conhecida por sua grande capacidade racional, de atitude fria e, aparentemente, distante de qualquer arroubo emocional.

Porém, L. G. Bayão e Wagner de Assis não conseguem transpor para o roteiro a clareza das informações do livro de Souto Maior e, muito menos, respeitam alguns fatos históricos da vida de Kardec, desvirtuados para atender às necessidades da narrativa por eles desenvolvida.

Fato x ficção === Uma dessas mudanças foi apresentar um Kardec apavorado com supostas perseguições de homens e espíritos. Deixa-se transparecer a ideia de um homem inseguro, que duvida em certo momento da própria razão – algo sem sentido para quem precisou de absoluta ponderação e equilíbrio no trabalho que se propôs realizar, conforme está na biografia escrita por Souto Maior.

Outro ponto em que se incorre em erro grosseiro é a prisão de Kardec, fato que jamais ocorreu. Muito menos as sequências em que a população apedreja a casa da família Baudin. É, mais uma vez, a necessidade dos roteiristas de criar uma curva narrativa que gere uma sequência de ações, que só deprecia a verdadeira história.

Os maiores e mais acirrados embates que Kardec enfrentou foram de ordem intelectual, o que se constata em diversas biografias, inclusive naquela que serviu de base ao filme.

Reconstituição primorosa === O filme tem seu ponto alto na direção de fotografia de Nonato Estrela. Impressiona a qualidade da recriação, da atmosfera e ambientação parisienses na segunda metade do século XIX. Há na palheta de cores um cuidado especial para exteriorizar a própria dualidade da Cidade Luz, norteada pelas grandes cabeças pensantes da Europa e, ao mesmo tempo, mergulhada na pobreza física e espiritual.

Igualmente o esmero se verifica na direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto e Hélcio Pugliese e nos figurinos de Kika Lopes e Rosangela Nascimento.

O casal Rivail  === Coube a Leonardo Medeiros (Kardec) e Sandra Corveloni (Amélie) a difícil tarefa de trazer à tona as personalidades mais emblemáticas da primeira fase do Espiritismo. E ambos o fazem com brilho, apesar de estarem amarrados a um roteiro que soa artificial em muitos momentos. Medeiros recupera, em seu desempenho, aquele Kardec identificado na biografia de Souto Maior.

E Sandra Corveloni encontra a correta dimensão de protagonismo que Amélie-Gabrielle Boudet teve no movimento espírita nascente. Amélie é doce, mas igualmente forte.

O casting conta com um elenco equilibrado e tem ainda o ótimo Genézio de Barros (padre Boutin), personagem que sintetiza as diversas forças religiosas contrárias à publicação de “O Livro dos Espíritos”.

O roteirista e diretor ===  Além do roteiro, Wagner de Assis também assina a direção. No currículo ele tem no segmento espiritualista o grande sucesso “Nosso Lar” (2010) e o sofrível A Menina Índigo (2016). Em todos os trabalhos, Assis põe a mão no roteiro, e talvez aí resida o seu maior desafio, uma vez que são recorrentes, em seus filmes, diálogos artificiais e a construção irregular das tramas.

Independentemente disso, é inequívoca a sua coragem de trazer para a telona discussões filosóficas e transcendentais. Tem ainda a seu favor a capacidade para levantar recursos para a produção – tarefa difícil – e reunir profissionais de primeira linha. “Kardec” é seu cartão de visitas mais recente. Porém, todos os melhores esforços e sinergia perdem força sem um bom roteiro.


Assista ao trailer do filme:

 


FICHA TÉCNICA

KARDEC     —  Distribuição: Sony Pictures

Direção: Wagner de Assis / Roteiro: L. G. Bayão e Wagner de Assis / Direção de Fotografia: Nonato Estrela / Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto, Hélcio Pugliese / Figurinos: Kika Lopes, Rosangela Nascimento / Compositor da Trilha Original: Trevor Gureckis / Produção: Eliana Soárez / Produtor de elenco: Marcela Altberg / Produção: Conspiração Filmes

Elenco: Leonardo Medeiros, Sandra Corveloni, Genézio de Barros, Guilherme Piva, Charles Fricks, Guida Vianna, Julia Konrad, Letícia Braga, Jullia Svacinna e Dalton Vigh

Gênero: Drama, Biografia / Duração: 1 hora e 50 minutos / Idioma: Português / Cor: colorido / Classificação indicativa: 12anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 16 de maio de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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