da Redação DiárioZonaNorte ===

É como ir assistir um comentado filme e alguém contar o final da trama. O começo acaba sendo o fim. É o que aconteceu na 3ª feira (22/01/2019) no auditório Queiróz Filho do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), ao lado da Catedral da Sé, no centro, que acolheu cerca de 150 pessoas, na primeira parte da audiência pública. Todos ansiosos para debater o Carnaval de São Paulo, com destaque às apresentações dos megablocos. Quem para lá foi não sabia o fim da “estória” já estava pré-determinado e, depois de 6 horas de muita falação,  ficou decepcionada ao saber que a Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP) mantém o Carnaval na Av. Tiradentes, na Luz/Bom Retiro,  e na Av. Marquês de São Vicente, na Barra Funda,  “não adianta chorar e nem espernear”. E para completar a organização do Carnaval de 2019, a PMSP  foi surpreendida e descobriu, no mesmo dia pela manhã, que não haverá patrocinador para o Carnaval de Rua. Não apareceu nenhuma empresa para concorrer na abertura dos envelopes para bancar o gasto de R$19,5 milhões. Os organizadores vão tentar uma solução no pouco tempo que falta para o evento.

Tudo acertado === “As cartas já estavam marcadas e agora não dá para mudar nada”, segundo um comentário na plateia, com a justificativa que “está em cima do Carnaval”, faltando apenas um mês para os blocos e megablocos nas ruas. A PMSP já tinha combinado com os estudos e mapas da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e de outros envolvidos no processo da organização do Carnaval. Houve várias reuniões fechadas, mas sem a presença de associações e representações de moradores e comerciantes – até dos Conselhos Comunitários de Segurança-CONSEGs. As audiências públicas não foram bem divulgadas, com poucas informações através das Assessorias de Comunicação da PMSP e nem mesmo foram comunicadas e  selecionadas as associações com as representações de cada região ou bairro envolvidos no esquema de Carnaval.  A maior vitória da Promotoria do Ministério Público foi determinar a exclusão da Avenida Paulista do roteiro do Carnaval e o cancelamento definitivo da Av. 23 de Maio — depois da desastrosa experiência do ano passado — com as surpreendentes indicações de novas opções (sem publicidade e consultas antecipadas) com as avenidas Tiradentes e Marquês de São Vicente.

Quem fala e justifica === Na mesa para comprovar a representatividade da audiência pública, a condução dos trabalhos a cargo do Promotor Dr. César Ricardo Martins, da Habitação e Urbanismo do Ministério Público do Estado de São Paulo, que acompanha os carnavais passados e que criaram polêmicas como da Vila Madalena e, no ano passado, os problemas surgidos na Avenida 23 de Maio. Ao lado do promotor, foram convocados Lúcio dos Santos (Secretaria Municipal das Subprefeituras); Júlio Fernandes Condursi Paranhos e Paulo Eduardo Soares (Companhia de Engenharia de Tráfego – CET); Capitão Osmário F. da Silva (Comando de Policiamento da Capital  da Policia Militar); Roberto Arantes (Subprefeito da Sé); Luis Fernando Alfredo da Silva (Subprefeitura de Pinheiros); Alberto Felício Júnior (Comissão Especial de Segurança Privada da Ordem dos Advogados do Brasil-OAB); e Ricardo de Almeida (Via Quatro do Metrô). Não foram notadas as presenças de representantes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e nem da Cia. do Metropolitano-Metrô da Linha Azul – que é a principal envolvida na região da Av. Tiradentes. Na plateia, o vereador José Police Neto (PSD) deu uma “passadinha”, ficou por uma hora, mais ou menos, e foi embora.

Mapas e números eficientes === Durante duas horas, além das intervenções do promotor, todos  os participantes da mesa falaram a respeito dos blocos e do megablocos – com uma plateia comportada e sem intervenções. Neste período, houve exibições de power-point no telão, para onde os olhos se dirigiram ao lato no telão para enxergar os mapas e tabelas. Todos puderam mostrar a eficiência e os esquemas especiais na organização do Carnaval, que envolvem bairros e regiões de 29 das 32 Subprefeituras da cidade, com 569 blocos e 633 desfiles. Mas o destaque maior foi em cima dos megablocos – que chegam a carregar cerca de 2 milhões de pessoas, com trio elétrico e artistas famosos – que vão invadir por horas e fechar várias avenidas de grande circulação: Tiradentes (Corredor Norte-Sul), Marquês de São Vicente, Pedro Álvares Cabral, Engenheiro Luiz Carlos Berrini, Brigadeiro Faria Lima com a  Presidente Juscelino Kubitschek, Brigadeiro Faria Lima (Largo da Batata) e Rua da Consolação. A previsão do Carnaval de São Paulo é receber 10 milhões de pessoas nas ruas. O  promotor César Martins já fazia o prenúncio junto microfone do que viria pela frente: “a reunião tem por objetivo trazer informações a respeito do Carnaval. A proposta é dar publicidade sobre o que já está sendo definido para o evento”.

Cansaço, sono e celular === Todo esse tempo de explicações e esquemas especiais para mostrar que “na teoria” tudo deverá sair conforme combinado em várias reuniões e na derradeira audiência pública. Tudo como combinado e esperar para ver se, “na prática”, acontece um Carnaval organizado e sem abusos de foliões exacerbados.  Neste período, as autoridades à mesa desdobraram várias vezes os pescoços para ver as exposições de mapas e números no telão; outros na mesa, como o representante da Subprefeitura de Pinheiros, deram alguns cochilos, até meio jogado na poltrona, ou estava atento em seu smartphone, o tempo todo.  O representante da CET chegou a esclarecer que através do Twitter e  do site serão divulgadas as áreas que estarão interditadas. Foi anunciada ainda uma nova parceria com os aplicativos de localização Waze e Google Maps, que também irão informar sobre os bloqueios de rua. Segundo o gestor de Trânsito da CET, “até o começo de fevereiro, todas essas informações de interdições estarão disponíveis. As faixas de vinil anunciando os bloqueios serão colocadas uma semana antes do acontecimento dos eventos, além de painéis digitais”. Já para  o Capitão Osmário, da Policia Militar, colocou que “a maior preocupação é com os megablocos e ensaios pré-carnaval. Blocos irregulares irão ser penalizados na forma da lei, assim como vendedores ambulantes”.  Ainda sobre segurança,  o presidente da Comissão Especial de Segurança Privada da OAB, Alberto Felício Júnior, recomendou a contratação empresas de segurança privada que sejam de grande confiança. “É muito importante a contratação de empresas de segurança idôneas, que tenham vigilantes capacitados, para que corra tudo bem durante a passagem dos blocos”, argumentou ele, citando a truculência e abusos de violência ocorridos em eventos anteriores.

Na plateia, o cansaço já era visível em algumas pessoas. Bocejos e mal jeitos nas poltronas. O tempo passava e só o ar condicionado ajuda um poucpo — lá fora com o calor, chegou a chover. O promotor deu um intervalo de 20 minutos para na segunda parte dar voz à plateia.

E o povo fala === E mais quatro horas (até 20h40) com mais de 35 inscritos com as colocações de entidades  e moradores –- com tempo estipulado entre 3 e 5 minutos, mas alguns chegando a 10 minutos. Foi um desfile de reclamações, argumentos e posicionamentos contrários às realizações de megablocos e as inúmeras consequências ao local. Nada adiantou. Como comentou um representante na plateia: “Muita falação, pouca ação. Tudo vem de cima para baixo”. Todos os argumentos foram usados e mostrados pelos moradores e comerciantes nas regiões dos blocos — e, no final, até representantes de blocos que ouviram todas as reclamações. Mas muita gente foi indo embora, usavam os argumentos e se retiravam. O auditório foi se esvaziando e restando menos de 60 pessoas.

A grande parte dos moradores das regiões pelas quais passarão os megablocos criticaram tais eventos. Alguns deles alegaram prejuízos para o comércio das regiões, incômodo e principalmente falta do direito de ir e vir. Sujeira e devastação também foram citados. Uma moradora chegou a relacionar todos os pontos negativos, chegando até citar “urina e defecação nas portas dos moradores e do  comércio”. Outros citaram as bagunças com muita bebida e drogas. Um arquiteto chegou a mostrar a ignorância dos organizadores que não convocaram um profissional ou até mesmo a responsabilidade da Secretaria Municipal de Urbanismo para os cálculos de trajetos com o volume de pessoas. Não houve nenhum comentário de apoio à organização do Carnaval e à PMSP, por unanimidade todos os inscritos fizeram críticas aos blocos e aos megablocos. Foi solicitado que, a partir de agora, haja estudos e planejamentos com antecedência  mais eficiente e locais apropriados, com a participação dos munícipes e entidades. O promotor sugeriu que as associações, entidades e CONSEGs  se unam para buscar soluções para a população, que através de uma entidade forte, como a Organização dos Advogados do Brasil (OAB) —  sem citá-la – possa levar avante o assunto chegando até aos vereadores em busca de normas e de projeto-de-lei. No fundo do auditório foi estendida uma faixa amarela de protesto “Nenhum direito a menos – É proibido proibir” — inclusive em alusão ao novo Secretário Municipal de Cultura,  Alexandre de Almeida Youssef — que tem ligações com blocos carnavalescos.

Em defesa da Av. Tiradentes === A decisão já estava tomada e, segundo o promotor, “irreversível e nada podia mudar”. O que tinha sido decidido pela Prefeitura de São Paulo ficou definido  e vai ter o Carnaval de megabloco (com a cantora Claudia Leite) na Avenida Tiradentes. Lembrando que os eventos ocorrerão  no Pré-Carnaval nos dias 23 e 24 de fevereiro (sábado e domingo) e no Pós-Carnaval nos dias 09 e 10 de março (sábado e domingo). Além dos dias normais de Carnaval: 2 a 5 de março – que simultaneamente tem as Escolas de Samba nos desfiles do Sambódromo, na Zona Norte, com deslocamento de muita gente no entorno, inclusive pela Av. Tiradentes.  A CET garantiu, durante a audiência pública, que as pistas laterais da Avenida Tiradentes ficarão liberadas para o trânsito, somente as pistas do meio serão para o megabloco. Mas não explicou como os agentes da CET vão conter a massa humana atrás do Trio Elétrico.

O presidente do Conselho Comunitário de Segurança-CONSEG do Bom Retiro, Saul Nahmias, foi um dos primeiros inscritos e leu uma Carta Aberta protestando contra a invasão da Avenida Tiradentes pelo megablocos. Ele chamou atenção para “a amplitude de prejuízos que os moradores, comerciantes, transeuntes e trabalhadores da região do Bom Retiro, Vila Sá Barbosa, Ponte Pequena, Luz e da região da Zona Norte”, relacionando: a violação do direito de ie e vir (bloqueando o Corredor Norte Sul, congestionamentos e superlotações em ônibus/estações do metrô); violação dos direitos de serviços de saúde (deslocamentos de doentes para unidades de saúde e hospitais); preservação do patrimônio público (locais de risco: Pinacoteca, Museu de Arte Sacra, Parque da Luz, Centro Esportivo Tietê e imóveis tombados); prejuízo à atividade comercial das regiões (lojas, restaurantes, bares e etc); prejuízos às atividades da Fatec |(Escola técnica e outras); uma área importante de segurança (Copom da Policia Militar, Rota e outros);  alto índice de população de idosos;  e a não transparência na veiculação de notícias da organização do evento.

No complemento, na vez da advogada Joana D´Arc Figueira Cruz, moradora há mais de 30 anos na Ponte Pequena/Armênia e uma das líderes comunitárias da região, o reforço da fala do presidente do CONSEG do Bom Retiro. E acrescentou o problema que acontecerá com quatro estações do Metrô-Linha Azul (Luz, Tiradentes, Armênia e até a São Bento) que terão um volume anormal. E foi observado que nem mesmo veio à reunião um representante da Linha Azul do Metrô. Joana lembrou a diferença entre a Marcha para Jesus, que é uma vez por ano com horário determinado, e que é passageiro, não para na Av. Tiradentes e a concentração acaba na Praça Heróis da FEB, em Santana. Segundo ela, é um evento grande, de 2 milhões de pessoas, mas organizado e cumpre as normas. E é o que não acontece com  o megabloco que fica parado com o Trio Elétrico e cria muita confusão. Os moradores da região também participaram de abaixos-assinados, sendo que um deles ultrapassou 10 mil assinaturas. Esses moradores também farão a fiscalização, à distância, dos acontecimentos e no final será preparado um “dossiê” com fotos e informações para debater o Carnaval do ano que vem — o mesmo está sendo planejado pelos moradores da Barra Funda, com acontecimento na Av. Marquês de São Vicente, que tem o apoio do CONSEG-Lapa.

E, para fechar o assunto referente à Avenida Tiradentes, a presidente da Associação dos Amigos do Mirante do Jardim São Paulo e Região, Alba Stella Medardoni, mostrou a preocupação de toda a Zona Norte que tem a Avenida Tiradentes como caminho natural – passando pela Ponte das Bandeiras – e que ainda tem os problemas de trânsito em consequências dos desfiles das escolas de samba, ao lado, no Sambódromo. Não sobra grandes alternativas, a não ser o desvio pela Avenida Cruzeiro do Sul, que estará bem congestionada e ainda tem o fluxo dos ônibus do Terminal Rodoviário do Tietê. Alba lembrou que os moradores da Zona Norte não foram comunicados oficialmente – e não foram convocados para reuniões ou audiências públicas – sobre a escolha da Avenida Tiradentes. Ela espera que não volte acontecer na organização do Carnaval do ano que vem – e que a Avenida Tiradentes seja repensada e excluída. Como alternativa, a presidente da Zona Norte lembrou um espaço enorme disponível com a Aeronáutica, ao lado do Campo de Marte (e do Sambódromo), que utilizado pelo Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA-SP). Neste espaço há condições de comportar até mais de um milhão de pessoas, com entradas controladas, que é utilizado para vários eventos e inclusive o Domingo Aéreo.

E, a partir desta 5ª feira (24/01/2019) começa o “esquenta dos blocos” com ensaios em suas regiões – ver aqui  a programação completa ( https://www.blocosderua.com/ ) — até chegar os dias dos desfiles oficiais.

Enquanto isto, releia a reportagem anterior do DiárioZonaNorte sobre o Carnaval na Avenida Tiradentes – clique: https://bit.ly/2AYJGJ7

 


Mais fotos da reunião e dos bastidores na fanpage do DiárioZonaNorte clique aqui.


 

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