por Aguinaldo Gabarrão (*)

Realizar a transposição de uma obra literária para o teatro, mantendo a forma e escrita do autor, não é uma tarefa fácil. E quando este livro é Grande Sertão: Veredas, a empreitada se torna de execução ainda mais complexa. O espetáculo dirigido por Bia Lessa consegue, com rara beleza, explorar a profundidade metafísica e universal da obra de João Guimarães Rosa (1908 – 1967).

O escritor, que se tornou imortal da Academia Brasileira de Letras em 1967, três dias antes de morrer, deixou uma obra monumental. E “Grande Sertão” é, provavelmente, sua produção mais experimental e aclamada pelos críticos.

“… qualquer amor é um pouquinho de saúde…” ===  Riobaldo (Caio Blat) conta para um suposto interlocutor a sua história, suas andanças, seus questionamentos existenciais sobre Deus e o diabo, e sua escolha que o levaria a integrar um bando de jagunços e conhecer, Diadorim (Luiza Lemmertz), integrante do grupo por quem ele sente uma perturbadora amizade que beira a relação afetiva de um casal.

Embora a história esteja ambientada no sertão, a obra de Guimarães não é de cunho regionalista, circunscrita a uma geografia definida e de aspectos meramente pitorescos. O ambiente, de certa forma, é referência para que o autor trate de questões caras a qualquer ser humano e, portanto, universais: o que é o bem e o mal; qual o sentido de uma existência; o feminino que habita o masculino; Deus e o diabo existem?

“Perto de muita água, tudo é feliz” === O rio caudaloso que permeia a geografia humana das personagens de Rosa, foi descoberto por Bia Lessa em meses de ensaios exaustivos. Preocupada em trazer imagens que não reduzissem a riqueza da obra, a diretora fez a opção mais acertada: menos é mais.

Assim, como resultado corporal, os atores foram talhados para expressar o gesto que fugisse ao cotidiano. O efeito plástico em cena é revelador do sentido e sentimentos da palavra expressa na obra literária. As imagens construídas pelos atores saltam aos olhos do público, e, este último, reelabora o ambiente de acordo com o seu próprio “sertão interior”.

“A vida nem é da gente” ===  A diretora trabalhou o elenco para que sua disposição coletiva fosse a grande força motriz do espetáculo. Num jogo que lembra o teatro épico, os atores, por vezes, trocam as personagens entre si, assumem sem qualquer receio a representação anímica de animais e atingem com êxito essa “impressão digital” que move cada desempenho.

Apesar da coesão do conjunto, é imprescindível destacar Caio Blat na composição de um Riobaldo forte e, ao mesmo tempo, frágil, por vezes, quase cândido, para logo à frente expressar também suas maldades, alternando estados de espírito que configuram a busca existencial da personagem. E Luiza Lemmertz, de presença cênica potente, faz emergir um Diadorim andrógeno, que por vezes, crê na sexualidade por ele assumida, e, em outros momentos, parece negar sua própria condição.

“Viver é muito perigoso” === O impacto da obra também é sentido no meticuloso trabalho de sonoplastia, de construção da trilha sonora por Dany Roland e música de Egberto Gismonti. O público utiliza um par de fones de ouvido e é inserido nesse fluxo de sons ambientes, cantigas populares, vozes sussurradas dos atores. Um conjunto que vai do minimalismo à grandiloquência e, por vezes, tem-se a sensação de que tudo transcorre numa sala de cinema.

Se por um lado essa profusão de músicas e sons pode aproximar-se em demasia do melodrama, por expressar a carga emocional das personagens e situações, o risco é perfeitamente aceitável uma vez que reforçam o pathos (drama humano, os acontecimentos) e a dimensão épica, presentes na obra de Guimarães Rosa.

“Mire veja” ===  As resoluções cênicas impressionam pela fluidez que mantém o desenrolar da narrativa e da ação. Poucos adereços se transformam em outros elementos. Bonecos de feltro estilizados – alguns ficam à entrada do espaço como instalação – são inseridos na cena e no jogo do teatro, tornando-se elementos da terra.

Por vezes se transformam numa tropa de jagunços ou são carregados pelos atores, numa provável alusão de que o homem carrega às costas, por suas ações, a vida de outros homens. O resultado destes signos amplia a intensidade poética da cena e desembocam em efeitos de grande impacto sensorial.

“As pessoas não estão terminadas” ===  A concepção do espaço de Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha, cria um lugar de confronto sem os artifícios da caixa preta. Assim, a geografia do sertão de Rosa apresenta-se com sua força e mistério transcendental, sem imagens pré-determinadas. O espaço, semelhante a uma arena de formação tubular, que lembra uma gaiola, tem o público ao seu redor em planos diferentes, e, mediante a interferência dessas estruturas na cena, as pessoas são estimuladas a mudar sua posição para visualizar particularidades do espetáculo.

Os figurinos de Sylvie Leblanc seguem o mesmo desenho de síntese e estilização proposto na encenação. Não chamam atenção para si, mas estão absolutamente integrados na cena desse sertão atemporal, maior do que o retrato realista que apequenaria a riqueza propositiva de Guimarães Rosa.

O sertão de cada um ===  A diretora Bia Lessa assumiu para si o desafio de realizar essa “travessia perigosa”, e sua versão teatral, contemporânea e exuberante de “Grande Sertão: Veredas”, tal como na obra original, nos faz sentir e acreditar que “… o sertão é dentro de nós”.


FICHA TÉCNICA

Concepção, Direção Geral, Adaptação e Desenho de Luz Bia Lessa

Elenco – Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, José Maria Rodrigues, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa === Concepção Espacial – Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha / Música – Egberto Gismonti / Trilha Sonora – Dany Roland / Figurino – Sylvie Leblanc / Adereços –Fernando Mello Da Costa / Desenho de Som – Marcio Pilot / Paisagem Sonora – Fernando Henna e Daniel Turini / Desenho de Luz – Binho Schaefer / Diretor Assistente: Bruno Siniscalchi / Assistente de Direção: Amália Lima / Operador de luz: Felipe Antelo / Designer de Som: Eduardo Vieira de Mello / Operadora de Som: Bruna Moreti  — Microfonista: Telma Lemos / Contrarregra: Arthur Costa / Identidade Visual: Cubículo / Registro Visual Processo Criativo: Roberto Pontes / Direção de Produção: Maria Duarte / Produtor Executivo: Arlindo Hartz / Administração: Eduardo Correia / Colaboração – Flora Sussekind, Marília Rothier, Silviano Santiago, Ana Luiza Martins Costa, Roberto Machado / Agradecimento especial à viúva do Autor, a quem a obra foi dedicada, Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, à Nonada Cultural e a Tess Advogados / © Nonada Cultural Ltda. / Assessoria de Imprensa: Approach Comunicação / Simei Morais.


SERVIÇO

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Espetáculo

  • Estreia: 24 de novembro de 2018 (sábado), às 20h30
  • Horários: Sábados, às 20h30, e domingos e feriado (25/01/19), às 18h30
  • Haverá recesso do espetáculo nos dias 22, 23, 29 e 30 de dezembro (vésperas de Natal e de Ano Novo)
  • Duração: 160 minutos
  • Ingressos: R$40,00. R$20,00 (meia-entrada: estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência). R$12,00 (credencial plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). Ingressos à venda pelo Portal sescsp.org.br a partir das 12h de 13/11 e nas bilheterias do Sesc São Paulo a partir das 17h30 do dia 14/11
  • Capacidade: 350 espectadores / Classificação: 18 anos

Instalação

É um termo que designa a forma de expressão contemporânea da arte em que o ambiente, a produção artística e os recursos utilizados permitem ao público deixar a condição de apreciador da obra e se tornar participante ativo.

A instalação organizada em frente ao espaço cênico proporciona, entre outras possibilidades, a fruição visual, de espacialidade e imersão para o espetáculo (telões apresentam o processo criativo). Os bonecos ocupam o espaço em grupo ou individualmente. Representam a figura humana, mas descaracterizadas de qualquer aspecto realista. Os semblantes não revelam individualidades e dão ao conjunto um aspecto de multidão anônima, coletiva. Podem ser um exército de jagunços ou figuras telúricas (da terra), realizando anonimamente a sua travessia.

Fotos: Nathalia Fernandes – Ver mais fotos na galeria em anexo/abaixo.

Visitação livre: a partir de 24 de novembro de 2018

Horários: de terça a sexta, das 11h às 21h. Sábados, das 11h às 19h. Domingos e feriado (25/01/19), das 11h às 16h / Classificação: livre 

Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93 – Lapa – Sem estacionamento.
Informações: portal sescsp.org.br/pompeia  

Telefone: (11) 3871-7720 / 7776


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


Institucional Trevo

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