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Escolas públicas da Zona Norte sofrem tombamento histórico para preservação dos prédios

da Redação DiárioZonaNorte

Surpreendidos! Foi o que aconteceu com os diretores de três escolas da Zona Norte/Nordeste com o anúncio de tombamento histórico de seus prédios. O diretor da Escola Estadual Silva Jardim (Av. Tucuruvi, 724 – ao lado da Prefeitura Regional Santana/Tucuruvi/Mandaqui), Eraldo Sampaio, “havia algo sobre isto, a intenção, mas até agora não fui avisado”.

O mesmo ocorreu com Moabe dos Santos Pinto, diretor da Escola Estadual Frontino Guimarães (Rua Paulo Gonçalves, 55 – Santa Terezinha/Santana – ao lado do Supermercado Pastorinho e próximo da Biblioteca Narbal Fontes), que reagiu da mesma forma “não sabia disto!”.

Já um pouco mais distante, na Vila Maria, a Escola Estadual João Vieira de Almeida, na Av. Guilherme Cotching, 1272, não fugiu à regra. A diretora Roberta Scalone foi mais taxativa: “Agora que sofreu tantas transformações? O piso não é mais o mesmo e houve outras mudanças. Vão preservar, mas não fui comunicada”.

Conpresp determina === Na semana passada, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) – órgão ligado à Secretaria Municipal da Cultura —  decidiu tombar em definitivo o conjunto de dez escolas públicas estaduais em bairros na cidade – Pinheiros, Tatuapé, Ipiranga, Aclimação – entre eles (* ver relação no final).

E  as três escolas localizadas na Zona Norte da cidade —  projetadas pelo engenheiro-arquiteto José Maria da Silva Neves, que era o responsável pela Seção Técnica de Projetos de Grupos Escolares da Secretaria da Viação e Obras Públicas, na segunda metade da década de 1930, um período importante no desenvolvimento de prédios escolares. Silva Neves era também professor adjunto da Escola Politécnica e professor da Escola de Belas Artes.

Mais espaços === Nesta época, as escolas estavam localizadas em terrenos abertos, isoladas em quarteirões, sem muitas construções em seu entorno. Uma época que também permitia maior liberdade com as fachadas, com muretas em seu redor, até com jardins.

Com o passar dos anos e desenvolvimento da cidade,  muitos prédios escolares ficaram próximos de outras construções e, em tempo depois,  foram erguidos muros altos como medida de segurança. Com maior preocupação, os projetos destes prédios recebiam planejamentos de janelas grandes para maior iluminação e circulação de ar; salas amplas; auditório-teatro para várias atividades; quadras esportivas; e até vestiários com chuveiros.

Nas construções, esses prédios em estilo Decó, receberam telhas francesas,  escadarias em mármores italiano e outros materiais importados.

Houve a preocupação com as pinturas das salas com o emprego de cores muito claras nos tetos, diante da necessidade de difusão da iluminação artificial.

As cores empregadas em tons claros  (creme, verde claro, cinza claro, azul claro ou bege) para a área superior das paredes; na parte inferior em cores mais escuras (amarelo, marrom ou madeira), sem brilho,  preocupando-se com a linha visual dos alunos.

Prédios escolares em mestrado === Em tese  de mestrado, em 2007, Fabiana Valeck de Oliveira desenvolveu o trabalho “Arquitetura Escolar Paulista nos Anos 30”, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), mostrando a importância e o desenvolvimento de projetos nesta área, com todos esses detalhes e preocupações em várias áreas.

Segundo ela, “os  prédios escolares eram importantes marcos na paisagem urbana das cidades paulistas. Um dos símbolos da presença do Estado e do desenvolvimento econômico e social, a arquitetura das escolas públicas em São Paulo  que é representativa de diferentes períodos da arquitetura paulista”.

Com pesquisas  focadas na construção de prédios escolares na década de 30, a mestranda buscou a evolução e a estética dos prédios escolares,  com destaque para aqueles considerados como de valor arquitetônico, histórico e cultural pode contribuir para a compreensão e valorização destes edifícios e de sua arquitetura, com vistas à sua preservação.

Neste importante trabalho, as referências ao engenheiro-arquiteto José Maria da Silva Neves inclusive aos três prédios da Zona Norte de São Paulo.

Agora ninguém mexe === Muito se perdeu nestes mais de 80 anos de funcionamento destas escolas, com mudanças internas e externas nos prédios. E agora, o objetivo é a preservação e a representatividade da arquitetura escolar pública pioneira, de uma época que se buscou soluções inovadoras. 

Esses prédios ficam atrelados às normas do Conpresp e só poderão sofrer modificações depois de um pedido especial e analisado pelo órgão municipal, que pode demorar  meses. “Com isto, ninguém vai poder trocar nenhuma fechadura ou maçaneta nos prédios. Tudo fica mais rigoroso”, comentou um funcionário da Delegacia Regional de Educação (DER)-Norte.

Assim, as intervenções dos bens tombados passam a ter seguintes normas do Conpresp:

(*) Devem ser respeitadas as características originais e dimensões dos espaços do prédio principal e dos galpões de recreio, assim como os vãos e envasaduras; os elementos de composição de fachadas e materiais de vedação, acabamento e ornamentação;

(*) Serão aceitáveis, dentro de critérios das recomendações das cartas internacionais de preservação, alterações de alguns destes elementos, desde que justificadas por uma melhor adequação e atualização do espaço;

(*) Serão permitidas e até recomendáveis demolições de anexos e ampliações que tenham desfigurado os partidos arquitetônicos originais sem contribuir para a melhor adequação do espaço escolar, especialmente os anexos feitos nas áreas externas.

(*) Não será permitida a colocação de antenas de telefonia, cartazes, painéis luminosos ou faixas publicitárias em qualquer área dos lotes em que se situem as escolas tombadas, bem como a utilização de seus muros de fecho como apoio.

(*) Não serão aprovadas instalações de bancas comerciais, painéis publicitários, pontos de parada de transporte coletivo ou de táxi nas calçadas frontal e laterais do prédio escolar, quando estas últimas delimitarem seu terreno, no trecho que vai da esquina, em frente ao edifício escolar, até o alinhamento predominante da fachada frontal do prédio original.

Mais pesquisas históricas === Essas intervenções nos edifícios originais devem basear as propostas em pesquisa de dados sobre a instituição e sua construção; prospecções para identificação de materiais originais e levantamento de documentação que contribua para orientar os projetos, como depoimentos, plantas originais e de reformas anteriores – além de fotografias antigas. Estes dados e documentos podem estar nos arquivos da própria escola, da Secretaria de Estado da Educação, da Fundação do Desenvolvimento Escolar – FDE e no Acervo Técnico do Departamento de Edificações da Secretaria Municipal de Serviços e Obras – SMSO.

Obras parciais em estudos ===  Os pedidos de alterações e interferências nos edifícios tombados pela resolução do Compresp devem obrigatoriamente atender as especificações contidas nos Documentos e Orientações Técnicas internacionais que tratam da metodologia de Conservação e Restauro de Bens Culturais de interesse para a preservação.

No caso de execução de obras parciais de manutenção dos edifícios, como pintura, eliminação de goteiras, substituição de partes de telhado, forro ou piso, poderão ser dispensados alguns documentos exigidos, a critério do órgão, desde que os espaços que sofrerão a intervenção estejam perfeitamente demarcados e numerados em planta geral do edifício e documentados fotograficamente, e ainda, que os procedimentos a serem realizados deverão estar claramente descritos em memorial dos serviços. Tudo rigorosamente observados, com as características  e mantendo as cores, além de materiais originais .

Sem reservas nos entornos === Os imóveis no entorno dos prédios escolares não serão atingidos nas áreas do tombamento, dispensando a prévia deliberação do Conpresp. Normalmente, os tombamentos de áreas e prédios tem um entorno preservado de 300 metros. Mas no caso do tombamento destes prédios escolares, há uma dimensão interna, que favorece a condição de destaque e preservação.

O que ficou na memória === O tempo passou e tudo foi mudando na cidade de antigamente nestes prédios do passado. Imaginar quantas pessoas passaram pelos bancos escolares, quantos professores ali mostraram seus conhecimentos, quantos alunos se transformaram em doutores ou chegaram em cargos elevados. Histórias que ali tiveram uma participação nas vidas de muita gente. Foram várias gerações de avós, pais, parentes e amigos. E agora tem a garantia de serem preservados, pelo menos no que ainda restou de suas construções. E na memória das pessoas e da cidade.

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Quem foi José Maria da Silva Neves ===  Engenheiro-arquiteto diplomado em 1922 pela Escola Politécnica de São Paulo, paulistano de 1896, e viveu por 82 anos (até 1978). Diplomou-se também como professor pela Escola Normal de São Paulo. De 1919 a 1925 lecionou no Liceu de Artes e Ofícios. Em 1925 foi um dos fundadores da Academia de Belas Artes, onde lecionou as cadeiras “Desenho de Aguado”, “Perspectiva e Aquarela” e “Estilos” do curso de arquitetura. Em 1930 foi um dos fundadores do Instituto Paulista de Arquitetos, participando de sua primeira diretoria.

Também em 1931, entrou para a Diretoria de Obras Públicas (DOP), da Secretaria de Viação e Obras Públicas. Em 1934, após a extinção do curso de arquitetura da Belas Artes, assumiu a cadeira “Desenho Linear” do curso geral, que lecionou até 1937. Desde 1935 estava registrado no CREA.  De 1935 a 1937 dirigiu a Seção de Arquitetura do Serviço de Prédios Escolares, onde foi responsável por inúmeros projetos de escolas. Em 1938, devido a proibição de acúmulo de cargos públicos (de 1937), Silva Neves deixou a Politécnica, optando pelo cargo na DOP.

Em 1939 assumiu a chefia da Seção de Arquitetura e Urbanismo da Comissão Especial de Obras Públicas da DOP. Em 1942 foi comissionado na Politécnica voltando as aulas de “Desenho Arquitetônico” e “Desenho de Perspectiva”.

Neste mesmo ano demitiu-se da DOP e foi efetivado na PolitécnicaDe 1942 a 1943 foi interino de Vilanova Artigas na cadeira “Composição Geral e Estética. Urbanismo I e II”, na Politécnica. De 1942 a 1946 foi representante da Politécnica no Conselho de Orientação Artística do Estado. Em 1943 foi nomeado catedrático da Politécnica de São Paulo, onde permaneceu até 1966.  De 1948 a 1954 foi assistente técnico da Comissão da Cidade Universitária. 

A partir de 1948, como representante da Politécnica, foi membro da Comissão Orientadora do Plano da Cidade, participando de seus trabalhos em 1953. Em 1948, com a criação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi contratado professor, lecionando a cadeira “Desenho Artísitico” até 1962. Manteve sempre escritório próprio de projeto. Após sua aposentadoria na USP, dedicou-se mais as pinturas.  Teve várias publicações de livros e artigos.

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Nota/Observação: Além dos prédios das três escolas da Zona Norte, a relação do Conpresp envolve outros bairros com as Escolas Estaduais que tiveram os projetos do engenheiro-arquiteto José Maria da Silva Neves:  Visconde de Congonhas do Campo (Tatuapé), Godofredo Furtado (Pinheiros), Dr. Antonio Queiróz Telles (Mooca), Gomes Jardim (Aclimação), Prof. José Escobar (Ipiranga), Princesa Isabel (Bosque da Saúde) e Marina Cintra (Consolação).