Artista paraense combina baião, carimbó e maculelê a violões distorcidos para falar sobre a travessia da vida adulta, política, saudade, espiritualidade e contradições do existir. Disco será lançado dia 12 de abril, em todas as plataformas digitais.

Casa é ter de onde partir, já dizia o poeta Max Martins. É preciso coragem para deixar as raízes e desbravar. E o cantor e compositor paraense Lucas Guimarães já caminhou muito. Aos 30 anos, traz vivências que atravessaram o interior da Amazônia, em Abaetetuba, sua terra natal; passou por Belém, onde deu vazão a sua sina de artista; para agora abrir asas sobre São Paulo, cidade grande, a maior do país. Com os batuques caboclos e violões “tortos”, Lucas traz poesias que versam sobre a travessia da vida adulta, política, saudade, espiritualidade, contradições do existir, e dá forma ao segundo disco de sua carreira, “Valente”. O lançamento do álbum será no dia 12 de abril, em todas as plataformas digitais.

A valentia de Lucas está na pulsão pelo novo.​ ​Vive como a Paxiúba, árvore que aparece na capa do disco. Ela é uma das poucas capazes de “caminhar”. Suas raízes são aéreas e ficam para fora da terra, assim ela se desfaz de uma raiz e nasce n’outra mais a frente, tornando possível o deslocamento – numa revelação das potencialidades surpreendentes da natureza.

Os traços da ilustração de Paxiúba são criação do músico e artista plástico paulista Kiko Dinucci– uma das maiores referências estéticas deste novo trabalho “Kiko é um dos caras mais inventivos das últimas gerações. Conheci o trabalho dele quando ouvi o primeiro disco do Metá Metá, e fiquei espantado. O violão soava meio Baden, mas mais agressivo, era um nylon mas com arranjos que pareciam mais de guitarra. Aquilo mudou minha vida. A partir de então, descobri uma música mais ‘torta’, uma estranheza que muito me agrada”, conta Lucas.

Som do Norte ===   Lucas Guimarães se relacionou com a música por meio da escrita. Foi através da leitura que criou a ponte com o ritmo das palavras, e daí, passou a tocar violão, ainda moleque. Em 2013, lançou o primeiro EP, “1930”, gravado todo em Abaetetuba. Em 2015, veio o primeiro disco, “Caliandares”, já na capital paraense.

O segundo álbum é fruto de um processo iniciado ainda em 2017, quando Lucas começou a mostrar as canções do disco. Depois de circular com o show, formatou o novo trabalho no estúdio a partir de toda troca experimentada junto ao público. “Valente” foi concebido e gravado em Belém, com artistas da cidade. Com uma sonoridade marcada pela percussão e imerso na música nortista e nordestina do Brasil, o disco evidencia referências do baião, carimbó, maculelê.

O álbum foi concebido e gravado em Belém, no Guamundo Home Studio, com os músicos Isma Rodrigues (percussão) e Ney Andrade (baixo). Em dez faixas, “Valente” traz composições de Lucas e uma parceria, a canção “A vanguarda do retrocesso”, assinada com Renato Torres, músico paraense e produtor do disco. O álbum abre em forma de oração. “Mantra” perpassa por muitos signos de religiosidade em busca de “tirar o ódio do coração e enxertar felicidade”.

A Vida  trata de dualidades, da beleza de saber do “yin yang” que forja o existir, e dos desafios de viver em meio ao caos político atual. Saudade é tema de “Vê se aparece”; a morte surge em “Breu”; a violência doméstica em “Dinorá”; a ambição em “Miúdo”; o humanismo e perseverança em “Avante”; e a condição de ser artista vindo d’outro lugar em “Abrigo”.

Em todas as composições, críticas sob o ponto de vista de um homem que partiu da Amazônia – num fazer artístico que combina a atmosfera mística da ancestralidade cabocla à condição de ser um indivíduo que hoje experiência a liquidez da vida pós-moderna. “Quando vou escrever, sempre lembro de onde eu vim para poder desenvolver minhas ideias. Minha perspectiva sempre será de um homem do interior”.

Serviço

Lucas Guimarães lança o disco “Valente”, dia 12 de abril, em todas as plataformas digitais. Confira no site: ​lucasguimaraesmusic.com

Resenha

Valente, de Lucas Guimarães

Por Renato Torres Produtor Musical do disco Guamundo Home Studio

Abaeté pode até ser imaginada como uma terra mítica para quem nunca tinha ouvido seu nome antes. Mais ainda se nem és do Pará, e vês/ouves Lucas Guimarães pela primeira vez: sua tez (que no nordeste brasileiro se chamaria de ​galego​) contrasta com essa origem cabocla, indígena a que estamos acostumados na Amazônia. Os cabelos encaracolados denunciam a mestiçagem que contrasta com sua pele clara, e sua linguagem na canção alinha voz e violão à ferro e ferida, em sincera delicadeza, coragem e firmeza.

Revelou suas canções no álbum “Caliandares” (2015), moldando acordes de seu violão entre as forjas analógico-digitais de sua pedaleira, com o ​loop station p​ rotagonizando a construção de seus ​grooves​ em tempo real a partir do violão de cordas de nylon. Essas experiências rítmicas solitárias foram fundantes: delas, seu violão partiu numa busca intensa de riffs e dedilhados onde outros instrumentos pudessem encaixar-se, e logo vieram a percussão e contrabaixo, não por acaso os interlocutores ideais desse enraizamento de suas melodias (que em “Caliandares” oscilavam entre o ar e a água, a sutileza e a emoção, a nostalgia e a melancolia), agora talhadas em terra e fogo, ancestralidade e luta, fraternidade e força, encantaria e bravura. Uma pesquisa que envolveu, após a composição dos temas com seus ponteados desenhados em minucioso entalhe no jogo entre letra e melodia, o papel definitivo da cozinha nas personalidades musicais de Ismael Rodrigues (percussão), e Neyvicton Trindade (baixo), dois músicos paraenses que imprimiram, além de seus talentos e musicalidades particulares, uma insuspeita textura emocional, uma camada passional, uma entrega que, para Lucas, era de fato urgente, imprescindível no ​ethos​ desse trabalho.

Assim nasceu, “Valente”, esse punhado de canções em inteireza e prontidão de combate. Um combate lírico, sim, de ideias e lógicas peculiares, porque formadas por um coração que não foi abatido pelas soluções fáceis do parque-de-diversões i​ndie​: suas canções evocam o sangue da tribo, a terra preta da taba, o couro esticado dos batuques, mas sem traços ufanistas.

Escreveu em ​Avante,​ ​“troco as armas por mais gente/ massa e desinteresse”,​ antecipando em alguns anos o que assistimos neste momento no contemporâneo cenário político e social brasileiro. Afirma sua estatura em ​Miúdo​ revertendo pequenez em abundância, prescindindo de qualquer aval institucional religioso, e retorna ao mistério em ​Breu​ e ​Mantra​, ao contrapor seu ateísmo a um respeito delicado pela extensão de tudo o que não se sabe, usando a canção como uma reza enviesada, um recado ao invisível pela integridade de tudo o que vemos demasiado. Sua origem é celebrada em ​Abrigo​ e ​Valente,​ a primeira, uma diatribe pessoal que assume responsabilidades (“​eu que inventei de ser artista​”) enquanto a segunda funciona tanto como cartões de visita quanto epitáfios perfilados, uma transubstanciação de um poeta de Abaeté que pode, sem equívocos, ser assumida por qualquer outro homem de sua terra, urdindo sua própria finitude. Em ​Dinorá,​ sua abordagem merengueada sobre o horror dos feminicídios e da violência contra as mulheres; em ​A Vanguarda do Retrocesso​, o cinismo desaforado e o solitário desencanto da geração ​whatsapp;​ em ​Vê se aparece,​ o ​religare​ impregnado nas relações de afeto humanas. Mas é em ​A Vida,​ primeiro single lançado em 2017, que muitas das aspirações de “Valente” parecem insurgirem-se, reunindo-se à roda de uma fogueira de memórias, desejos, utopias, saudades, indo do íntimo ao público – alegoria de sua própria trajetória de artista que sai do interior do Pará para a capital, Belém, e depois de Belém para São Paulo, a gigantesca megalópole brasileira – num augúrio feliz de futuro.

FICHA TÉCNICA​:

  • Produção Musical:​ Renato Torres​ e Lucas Guimarães
  • Músicos Banda:​ Neyvicton Trindade​ (baixo), e​ Isma Rodrigues​ (percussão) e​ Lucas Guimarães​ (violão e voz)
  • Músico convidados:​ Lariza​,​ Tâmara Almeida de Aviz​,​ Jimmy Góes​, Arthur da Silva,​ Lari Xavier​,​ Renato Torres​,​ Thalia Sarmanho​,​ Carol Magno​ e​ Gabriel Gaya​.
  • Gravação, Mixagem e Masterização:​ Renato Torres (Guamundo Home Studio​)
  • Ilustração:​ Kiko Dinucci
  • Identidade Visual:​ Lucas Gouveia
  • Planejamento de Campanha:​ Rodrigo Bittencourt Rodrigues​ e Mayara Tocantins
  • Gravação de Videos:​ RafaelCafé Sales​ e​ Michel Ribeiro
  • Fotos:​ ​Cinza Jambo
  • Assessoria de Imprensa​:​ Gil Sóter
  • Maneger / Produção Executiva:​ Tainah Fagundes

Um pouco do som de Lucas Guimarães:

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