por Aguinaldo Gabarrão (*)

O diretor László Nemes ganhou, aos 39 anos, um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com seu primeiro filme de longa metragem, “O Filho de Saul”, em 2016. Além do prêmio mais importante concedido pelo cinema americano, ele também amealhou, entre outros, O Grande Prêmio no Festival de Cannes em 2015.

Além da difícil tarefa de dirigir, László também roteiriza seus filmes e o conjunto destas duas atividades expressa sua visão de cinema: usar a lógica do “menos é mais”. Assim, o jovem diretor entrega ao espectador o que considera necessário para que, a partir daí, o público participe com sua imaginação para compreender suas tramas e personagens.

Essa mesma métrica é usada pelo diretor em sua mais recente produção, “Entardecer”.

A decadência de uma época  ===  Em 1913 uma jovem retorna a Budapeste, após anos distante de sua cidade natal, em busca de suas raízes e de seu lugar no mundo. Sua principal esperança é conseguir um emprego na lendária loja de chapéus femininos Leiter, que pertenceu aos seus pais e à sua família por muito tempo. Mas a reação contrária à sua permanência na cidade, a levará a investigar o passado de sua família.

A produção reproduz com esmero a Budapeste da primeira década do século XX. A Belle Époque (época de ouro das ciências e artes; grande período de paz) estava prestes a reduzir-se a cinzas com a 1ª Grande Guerra. É neste contexto que a personagem Írisz Leiter (Juli Jakab) chega à cidade.

Os ventos da mudança ===No seu primeiro contato com Oszkár Brill (Vlad Ivanov), atual dono da loja, Írisz causa estranhamento e preocupação. E esta sensação de desconforto se amplia na medida em que a jovem resiste em deixar a cidade.

A sua insistência reflete não só a necessidade de se reconectar com suas raízes, mas também de encontrar o seu próprio espaço, numa Budapeste que é o microcosmo de um mundo em decadência, que recusa qualquer mudança que possa interferir no seu modus vivendi.

“Vamos levantar este véu”=== A trama, conduzida numa crescente tensão, tem ao final uma conclusão que gera surpresa e certa insatisfação. Mas não se pode negar que o diretor László Nemes é engenhoso na carpintaria do roteiro e oferece ao público mais do que o óbvio.

E este cuidado na escrita do roteiro, verifica-se logo na primeira frase, dita pela funcionária da loja de chapéus à jovem Írisz: – “Vamos levantar este véu”, menção ao tecido de tule que recobre o chapéu, e que pode ser interpretada como metáfora das descobertas que ela viria a fazer no seu retorno a Budapeste.

A narrativa particular da câmera === A fotografia de Mátyás Erdély, que já havia trabalhado com o diretor em “O Filho de Saul”, realiza uma primorosa composição de ambientes e climas. A loja de chapéus revela uma luminosidade límpida, pura. É o contraponto perfeito para os ambientes soturnos que, mostram outras camadas da mesma sociedade que vive das aparências.

Outro aspecto interessante é que não há planos e contra planos. A câmera acompanha as personagens e, de forma ostensiva, a protagonista Írisz, o que transmite a sensação de que o espectador participa intimamente da busca incessante da personagem por respostas, num clima de suspense.

Entardecer === Os atores, irrepreensíveis em suas composições, assumem em seu registro um tom de dramaticidade que beira o trágico, como se tudo fosse o anúncio do que esta por vir, e a protagonista Juli Jakab, que interpreta Írisz, tem a difícil incumbência de manifestar as intenções de sua personagem, com a neutralidade do seu olhar. E o faz com mérito.

O filme “Entardecer” mais do que significar “o cair da tarde”, é o registro de uma época de otimismo e glamour que estava prestes a se acabar diante da barbárie da 1ª Guerra Mundial.


Assista ao trailer do filme:


FICHA TÉCNICA

ENTARDECER (Título original: Napszállta) =   Distribuição: California Filmes

Direção: László Nemes / Roteiro: László Nemes e Clara Royer / Direção de Fotografia: Mátyás Erdély / Elenco: Juli Jakab, Vlad Ivanov, Judit Bárdos, Evelin Dobos

Gênero: Drama / Suspense / Duração: 2 horas e 22 minutos / Idioma: Húngaro / Cor: colorido / Classificação indicativa: 14 anos / País: Hungria, França / Ano de Produção:

2018

Lançamento: 2 de maio de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


LimpaSP – estréia

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