por Aguinaldo Gabarrão (*)

Escrever e produzir um espetáculo de teatro que dialogue com o jovem é um grande desafio. Ainda mais desafiador é encontrar peças teatrais para adolescentes, com a mesma quantidade e qualidade que existem para crianças e adultos.

Mas se a escassez existe, não é menos verdadeira a afirmação de que o grupo Marginália Teatro Jovem, formado por jovens paulistanos, resolveu dar o seu recado em salas de aula, bibliotecas e nos palcos.

Marginália? ===  O grupo surgiu no fim de 2016, com integrantes oriundos do Projeto Espetáculo das Fábricas de Cultura da Zona Leste, iniciativa do Governo do Estado de São Paulo que oferece a interação da cultura com a comunidade.

O nome Marginália significa o conjunto de notas, escritos pessoais ou editoriais nas margens dos livros. E quem reuniu a trupe em torno desse grupo foi o diretor Gira de Oliveira.

Qual é a história? ===  Três jovens, três histórias diferentes e vários dilemas e perguntas comuns nesta fase de mudanças radicais. Pedro quer ser músico e encontra dentro de casa seu primeiro obstáculo. Nayara gosta da irmã do seu namorado e tem sua sexualidade discutida num programa de televisão. Rebeka é “diferente” e não consegue formar um grupo para um trabalho da escola. Em comum, eles têm a necessidade de buscar respostas para suas motivações mais íntimas.

O texto, escrito em processo colaborativo pelos integrantes do grupo, tem a virtude de dar a voz ao adolescente em três questões importantes: a escolha da profissão; a sexualidade que aflora e as facetas do preconceito.

Ritos de passagem === Embora as histórias não se relacionem diretamente, é interessante a amarração da escrita cênica, feita a partir do desejo de pertencimento que as três personagens buscam ardentemente. Cada um vive seu rito de passagem e a consequente angústia que advém de suas dúvidas: é certo o que eu quero, penso ou sinto?

E estas questões, tão importantes aos jovens de ontem e de hoje, são tratadas de forma leve, sem que se resvale na superficialidade. Os diálogos são verossímeis e espontâneos, carregados de poesia.

Música: diálogo das personagens ===  O diretor Gira de Oliveira traz para a encenação de “Ensaios”, elementos comuns ao seu outro coletivo, a Cia Lúdicos de Teatro Popular: a presença do coro; economia de adereços que estimulam o ator a usar sua partitura corporal de forma mais expressiva, e música ao vivo, utilizada para provocar o efeito de distanciamento – o público é lembrado que assiste a uma peça teatral – entre outros recursos.

Contudo, neste trabalho, Oliveira conduz a música para outro patamar. Com direção musical competente de Alexandre Guilherme, a trilha sonora tem papel decisivo na tessitura das histórias, na ligação entre as cenas e na compreensão do universo particular de cada personagem, dos seus conflitos e dilemas. O elenco canta para atender a uma necessidade da escrita cênica: dialogar com o público. E o resultado convence.

Bom humor e inteligência ===  O grupo – composto por seis atores e mais três músicos em cena – realiza um trabalho honesto a partir da proposta que abraçou ao escrever o texto. O elenco feminino se sobressai na composição de suas personagens, o que não desequilibra o conjunto. Há paixão em seus integrantes, mas é igualmente preciso ter mais foco e tônus na ação.

“Ensaios” é um espetáculo que agrada e, em certos momentos surpreende, porque o grupo Marginália Teatro Jovem tem a clara pretensão, e consegue, falar de temas e assuntos que são caros à sua própria geração, com bom humor e inteligência.

Assista ao teaser do grupo:


FICHA TÉCNICA

Textos e dramaturgia: Marginália Teatro Jovem / Direção geral: Gira de Oliveira / Figurinos: Gizele Panza e Marginália Teatro Jovem / Designer gráfico: Gabriel Victal / Direção musical: Alexandre Guilherme / Fotografias: Fabrício Maruxo / Elenco: Brenda Rebeka, Brenno Botton, Lídia Oliveira, Nayara Martins, Pedro Vinícius, Tiago Bispo / Músicos: Bia D’Ávila, Erik Teodoro, João Matheus


 SERVIÇO

ENSAIOS

  • Oficina Cultural Oswald de Andrade
  • Dias 01 e 29/06/2019 (sábados)
    Duas sessões por dia: 01.06.2019 (17h e 18h30) e 29.06.2019 (17h e 18h30)
  • GRATUITO
    Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – (Próximo ao metrô Tiradentes)

O espetáculo também será apresentado nas seguintes bibliotecas públicas:

  • 06.07 – (sábado) – 14h – Biblioteca Cassiano Ricardo
  • 07.07 – (domingo) – 11h – Biblioteca Paulo Sérgio Duarte Milliet
  • 11.07 – (quinta-feira) – 14h – Biblioteca Mário Schenberg
  • 13.07 – (sábado) – 11h – Biblioteca Brito Broca
  • 21.07 – (domingo) – 11h – Biblioteca Álvares de Azevedo

Contatos com o grupo Marginália Teatro Jovem:


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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