por Aguinaldo Gabarrão (*)

Quando Walt Disney (1901 – 1966) escolheu o livro “Dumbo” da autora Helen Aberson para ser o quarto longa-metragem da sua empresa, ele sabia que tinha em mãos uma boa história para ser levada ao cinema.

O desenho animado do elefantinho voador que sofre preconceitos por conta de suas enormes orelhas, foi um sucesso e Disney se recuperou dos prejuízos de duas produções anteriores. Era o ano de 1941, em plena 2ª Guerra Mundial.

Coube a Tim Burton, artista criativo, fazer em seu “Dumbo” uma releitura particular e apontar outros níveis de crueldade contra o paquiderme.

O verdadeiro Dumbo === Ao terminar a primeira guerra, Holt Farrier (Colin Farrell) retorna para o circo onde ele foi uma de suas principais estrelas. Porém, todos passam por grandes dificuldades, e ele fica encarregado de cuidar de um elefante recém-nascido, com orelhas gigantes que fazem do paquiderme motivo de piada. No entanto, os filhos de Holt descobrem que o pequeno elefante é capaz de voar. E este fato irá atrair a ganância de um grande empresário.

O livro de Helen Aberson foi baseado na história verdadeira do elefante Jumbo, capturado na África em 1865 e que passou pelo zoológico de Londres. Anos depois foi vendido a um circo norte-americano e terminaria seus dias, atropelado por uma locomotiva no Canadá. A vida deste animal foi um verdadeiro inferno.

Ficou a cargo de Eheren Kruger escrever o roteiro. Ele evita estes e outros fatos desoladores sobre a vida do elefante africano, porém, não deixa de contemplar a ganância financeira do show business e seus desdobramentos nefastos, o que não está no longa-metragem de 1941.

Novos personagens === Além disso, a história repaginada, ganha novos e interessantíssimos personagens. No lugar do ratinho Timóteo, uma espécie de conselheiro de Dumbo na versão de 1941, Kruguer coloca duas crianças: a menina Milly (Nico Parker), figura mais racional e seu irmão Joe (Finley Hobbins), ambos apartados da crueldade preconceituosa dos adultos.

O empresário megalomaníaco Vandevere (Michael Keaton), o banqueiro (Alan Arkin) são outras aquisições que enriquecem a trama, ao mostrar a face mais escancarada do entretenimento com foco exclusivo no lucro. E o militar Holt Farrier (Colin Farrel) é outra boa sacada, pois ele traz consigo uma marca pessoal que desperta nas pessoas um estranhamento similar àquele que dispensam ao pequeno elefante.

O elenco potente encabeçado por Colin Farrel (Demolidor), Danny DeVito (Batman – O retorno), Michael Keaton (Birdman), Eva Green (Cruzada) tem ainda veteranos que emprestam seu talento com brilho: Alan Arkin (O Que é Isso, Companheiro?) e Roshan Seth (Gandhi).

Repetir para inovar ===  O diretor Tim Burton tem sua marca pessoal bem conhecida: o estilo gótico na iluminação de seus filmes (Batman e A Lenda do Cavaleiro Sem cabeça); a presença de personagens incomuns, que fogem ao padrão vigente (Edward Mãos de Tesoura e A Noiva Cadáver); a deformação da cenografia (Alice Através do Espelho, A Fantástica Fábrica de Chocolate); a sua paixão pelo que há de bizarro na morte (O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet).

E, neste “Dumbo”, Burton acrescenta à sua filmografia uma incomum suavidade em seu próprio estilo. A palheta de cores explora, na belíssima direção de fotografia de Ben Davis, a luz típica da ribalta do circo. O niilismo, a ironia mais corrosiva e exagerada nas ações das personagens centrais em seus diferentes filmes, cede espaço à melancolia guardada no fundo dos olhos do elefantinho. É, talvez, o olhar do diretor perante o mundo que ele mesmo tenta compreender.

A pureza esquecida ===  Porém, é mais do que isso. Há em Dumbo a pureza que parece não ser possível de conviver num mundo repleto de arbitrariedades e incompreensões. Dumbo voa porque sua vida não cabe num circo, pequeno ou grande, porque o mundo que nele habita precisa também de uma sociedade renovada em seus conceitos, que amplie sua visão de mundo, integrado com as diferenças para sobreviver e crescer.

Mas, se o leitor deste DiárioZonaNorte, tiver chegado ao final da leitura desta crítica e perguntar: “este filme é para crianças?”. Posso afirmar com tranqüilidade: “Dumbo” é um filme instigante e belo para todas as crianças: inclusive as crianças adultas que o diretor Tim Burton consegue tocar com sua genialidade.


Assista ao trailer do filme: 


FICHA TÉCNICA

DUMBO (Título original: Dumbo) – Distribuição: Disney – Buena Vista

Direção: Tim Burton / Roteiro: Eheren Kruger / Direção de Fotografia: Ben Davis / Trilha Sonora: Danny Elfman ==  Elenco: Colin Farrel, Danny DeVito, Michael Keaton, Eva Green, Nico Parker, Finley Hobbins, Alan Arkin, Roshan Seth, Deobia Oparei, Joseph Gatt, Sharon Rooney, Lucy DeVito, Lars Eidinger, Douglas Reith, Greg Canestrari, Bernard Santos, Richard Price e Erick Hayden.

Gênero: Aventura, Drama / Duração: 1 hora e 52 minutos / Idioma: Inglês e dublado em português / Cor: colorido / Classificação indicativa: 10 anos / País: EUA / Ano de Produção: 2019 / Lançamento: 28 de março de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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