de Aguinaldo Gabarrão === 

A produtora Estação Luz Filmes notabilizou-se ao trazer para o mercado cinematográfico brasileiro produções de teor espírita ou transcendental, desde sua estreia com o filme “Bezerra de Menezes – O diário de um espírito” (2008). Mas, sem dúvida alguma, o filme “Divaldo – O Mensageiro da Paz” é sua produção mais ambiciosa.

O filme conta a surpreendente história de Divaldo Franco (Bruno Garcia), orador espírita e filantropo, que, desde sua infância, no interior da Bahia, é perseguido por visões de mortos. Apoiado pelo espírito de Joanna de Ângelis (Regiane Alves), ele funda a Mansão do Caminho, mas, apesar de toda sua abnegação, carrega consigo o peso da constante perseguição de um espírito (Marcos Veras), que exigirá do médium o exercício do amor para tentar superar o ódio.

A história e o homem === Contar a trajetória de vida de Divaldo Franco – atualmente com 92 anos – não é, definitivamente, uma tarefa fácil para um roteirista. É necessário fazer escolhas e o roteiro de Clovis Mello, auxiliado por outros três roteiristas (veja na ficha técnica), tem o mérito de contar a história de forma dinâmica e com a trama bem amarrada.

O roteiro perde força em sequências nas quais se faz a opção de explicar determinados efeitos provocados por espíritos – de acordo com o Espiritismo – e também quando o tom professoral e moralizante assume algumas falas da personagem “Joanna de Ângelis”. Neste ponto, a narração ganha espaço em detrimento da ação.

Numa sequência há um suposto diálogo entre o médium Chico Xavier e Divaldo que causa estranheza: “… nós somos como dois postes de luz: precisamos ficar separados para levar luz a mais lugares…”. Se Chico realmente disse essa pérola, certamente estava sob o domínio da vaidade…

Mas é inegável a qualidade de boa parte dos diálogos, coloquiais, bem construídos e com um tom de humor que resgata o jeito e a maneira que o médium baiano sempre utiliza em suas palestras pelo Brasil e mundo afora.

Reconstruir épocas distintas === Outro grande desafio para a produção foi ambientar o filme em três décadas distintas para mostrar a personagem Divaldo nas fases de criança, jovem e adulto. A direção de arte de Claudia Terçarolli consegue trazer um padrão de qualidade acima da média. Destaque também para os figurinos de Karla Monteiro e caracterização de Rose Verçosa.

Por sua vez, a direção de fotografia de Jean-Benoît Crepon supera algumas limitações técnicas de produção e extrai o melhor efeito plástico e dramático para o filme. Uma das cenas intimistas mais belas é o encontro de Divaldo com o espírito obsessor, com quem trava um diálogo, enquanto o médium queima manuscritos numa fogueira.

Atores e atrizes afinados === O ator Guilherme Lobo (Divaldo na 2º fase), sutil e com sotaque baiano que dá sabor às falas, apresenta os aborrecimentos e dilemas do jovem em oposição à sua missão. Na fase adulta, Bruno Garcia interpreta Divaldo, homem já experimentado na vida e no sacrifício. O ator está convincente e empático, embora o sotaque baiano tenha desaparecido por completo.

Por sua vez, Nelson Baskerville (Padre Carmelo) revela, nas entrelinhas, seu conflito pessoal entre os postulados da Igreja e as manifestações espirituais. O ator Bruno Suzano (Nilson – 2ª fase) compõe com segurança a bonomia de sua personagem. E Bruce Brandão, num trabalho corporal de difícil realização, traz a dor e sofrimento de uma personagem obsessiva e sofredora, sem dizer palavra alguma.

O espírito que persegue Divaldo ficou a cargo de Marcos Veras, que, a princípio, exagera nas tintas, mas, no desenrolar da história, encontra o tom adequado e compõe uma personalidade factível e de dimensão humana, por conta dos conflitos que traz consigo. É tocante a sequência final do embate do obsessor com Divaldo.

O casting de atrizes é encabeçado por Regiane Alves (Joanna de Ângelis). A intérprete transmite a necessária energia da mentora, sem deixar de lado a sutil doçura, para quebrar a rigidez eclesiástica da antiga religiosa. Outras belas representações são de Ana Cecília Costa (Laura), Maria Salvadora (Dona Ethelvina) e Laila Garin (Dona Ana, mãe de Divaldo), atrizes potentes em suas composições, que evidenciam o quanto as mulheres foram determinantes na formação moral e espiritual do médium baiano.

Espiritismo com obras ===  O diretor Clovis Mello, mesmo fazendo algumas concessões a elementos do melodrama no roteiro e na trilha sonora – o que pode ser entendido como um apelo fácil para conquistar o público –, alcança em Divaldo – O Mensageiro da Paz um nível de excelência que não tem sido comum às obras ficcionais de mesmo gênero nesta última década, salvaguardando o filme “Chico Xavier”.

Mello extrai de seus atores uma interpretação comedida. Busca lapidar os diálogos de maneira a que sejam verossímeis, sem afetações. Apresenta a dimensão humana de um homem que sofreu com sua própria vaidade, que errou e que não está entronizado num altar.

E o ponto crucial da trajetória de Divaldo Franco, apresentada pelo diretor, vinculado aos postulados do Espiritismo – sendo ou não aceito – é a obra social e educativa da Mansão do Caminho, a materialização do discurso do médium.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

DIVALDO – O MENSAGEIRO DA PAZ    –  Distribuição: Fox Film do Brasil

Direção e Roteiro: Clovis Mello / Roteiro de desenvolvimento: Rosália Figueirêdo, Glauber Paiva Filho e Osiel Neto / Direção de Fotografia: Jean Benoît Crepon / Direção de Arte: Claudia Terçarolli / Figurinos: Karla Monteiro / Caracterização: Rose Verçosa / Música Original: Hilton Raw / Som direto: Ricardo Cadilla / Montagem: João Branco / Supervisão de som e mixagem: Rodrigo Ferrante / Produção: Luis Eduardo Girão, Sidney Girão e Raul Dória / Produção executiva: Isabela Veras e Luciane Toffoli / Produção de elenco: Marcela Altberg / Produção: Cine e Estação Luz Filmes / Divulgação: Atômica Lab e Ketchum Ass.Imprensa

Elenco: Bruno Garcia, Regiane Alves, Guilherme Lobo, Laila Garin, Marcos Veras, Ana Cecília Costa, Caco Monteiro, Osvaldo Mil, Maria Salvadora, Nelson Baskerville, Bruno Suzano, Bruce Brandão, Álamo Facó, João Bravo

Gênero: Drama, Biografia / Duração: 1 hora 59 minutos / Idioma: Português / Cor: colorido / Classificação indicativa: 12 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2019
Lançamento: 12 de setembro de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

 

 

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