por Aguinaldo Gabarrão (*)

O americano Julio Hernández Cordón — diretor de filmes respeitáveis como “Gasolina” – 2008, “Las Marimbas do Inferno” – 2010 e “Te Prometo Anarquia” – 2015, com personagens e histórias anárquicas, bem construídas —, deu uma derrapada tremenda com “Compra-me um Revólver”.

O filme se passa no México, em algum momento de um futuro próximo. As mulheres estão desaparecendo gradativamente e uma garota chamada Huck (Matilde Hernández) usa uma máscara para conseguir esconder seu gênero. Ela ajuda seu pai, um viciado atormentado, a cuidar de um campo de beisebol abandonado, onde traficantes se reúnem para jogar. Com a ajuda de seus amigos, Huck tem que lutar para superar sua realidade e derrotar a máfia local.

Lugar imaginário === A história se passa num lugar imaginário, distópico. O roteiro de Cordón não se preocupa em determinar uma geografia específica e, embora bastante interessante essa ideia, a construção irregular da trama principal e das subtramas, derruba qualquer boa sacada do roteirista.

Para criar sua distopia, o diretor faz um pastiche que lembra uma versão confusa e pobre de Mad Max. Quer parecer atemporal, mas fica datado por conta da produção de arte, que não consegue criar visualmente essa atemporalidade.

Futuro impreciso ===  Se o roteiro vislumbra transmitir a ideia de um futuro apocalíptico próximo de todos nós, não consegue explicar os motivos pelos quais as “grandes corporações” querem promover o desaparecimento das mulheres.

O ótimo fio condutor que poderia ser a pequena Hulk, a menina que usa a máscara para ocultar a sua sexualidade e escapar da fúria tribal masculina, torna-se frágil e inverossímil na forma como se apresenta na trama.

A sorte ===  Centro das atenções no roteiro, Hulk, logo no início, revela ao público que seu pai é um homem de sorte e quer transmitir a ela essa mesma possibilidade imponderável.

É devastadora a ideia de que a vida parece ter um destino definido, que só pode ser enfrentado e, até certo ponto, mudado, por um fator irracional: a casualidade. Mas até essa boa ideia, que poderia render uma melhora nas intenções das personagens e nos encaminhamentos da história, fica completamente diluída nas incongruências da direção e roteiro.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

COMPRA-ME UM REVÓLVER (Título original: Cómprame un revólver)
Distribuição: Califórnia Filmes

Direção e Roteiro: Julio Hernández Cordón  / Trilha Sonora: Carlos Garcia / Produção: Diana Bustamante e Jorge Forero

Elenco: Ángel Leonel Corral, Matilde Hernández, Rogelio Sosa e Fabiana Hernandez

Gênero: Drama  / Duração: 1 hora e 24 minutos / Idioma: espanhol / Cor: colorido / Classificação indicativa: 16 anos / País: México e Colômbia / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 30 de maio de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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