por Aguinaldo Gabarrão (*)

Nos anos 30 o ditador soviético Joseph Stalin impôs a Ucrânia sua estratégia que viria a ser conhecida como Homolodor: política de extermínio por meio da fome. Seu objetivo era obter dividendos à seu projeto pessoal de dominação e fortalecimento do stalinismo.

O filme Colheita Amarga tenta contar esse fato pouco conhecido e que dizimou a vida de milhões de pessoas, algo tão abominável quanto o holocausto judeu. Até hoje, não se tem a ideia clara do número de mortos, mas calcula-se de 3 a 10 milhões de vítimas.

Vidas separadas ===  O jovem Yuri (Max Irons), nascido numa família de guerreiros cossacos, é um talentoso desenhista. A vida do rapaz muda quando o Exército Vermelho invade seu país, persegue sua família e o obriga a separar-se do seu grande amor para buscar sua ascensão artística. Mas, ele é preso e, a partir daí se unirá aos revoltosos em busca da liberdade de seu povo.

O roteiro escrito por Richard Bachynsky-Hoover em parceria com o diretor George Mendeluk, foi inspirado a partir de sua visita a Ucrânia, terra de seus ancestrais. Curiosamente, o diretor também tem fortes ligações com o país, pois sua mãe foi uma sobrevivente da política de fome forçada promovida pelo governo soviético.

Roteiro e produção irregular ===  Este é o primeiro roteiro de Hoover e, visivelmente, percebe-se a “sinuca de bico” em que ele se coloca. A história tem tipicamente a estrutura de um folhetim mal escrito. E, apesar da importância do fato histórico, infelizmente, o desenvolvimento esquematizado das personagens, faz com que a história perca muito da sua carga dramática.

Exemplos dessa incongruência se multiplicam: o jovem desenhista Yuri deseja ardentemente tornar-se um artista e, no decorrer da trama isso é deixado de lado no roteiro para justificar sua opção pela guerrilha. E nada mais é dito a respeito. Por sua vez é difícil acreditar que o cruel Sergei (o ator Tamer Hassan), representante do Estado Soviético, não dê cabo imediatamente do velho patriarca Ivan (Terence Stamp), poupando sua vida mesmo após o velho cossaco tentar matá-lo.

Não bastassem esses problemas do roteiro, os figurinos dos camponeses são impecavelmente perfeitos para uma categoria que trabalha de sol a sol.

O elenco de estrelas === O diretor George Mendeluk conduz a história e atores a um lugar comum, sem qualquer surpresa. Sua direção de atores explora um tipo de interpretação em que a sutileza passa longe. O ator britânico Max Irons (Yuri) e a atriz Samantha Barks (Os Miseráveis – 2012), formam um par romântico chato e açucarado.

A exceção é Terence Stamp (o patriarca Ivan). O veterano foge das caretas e apresenta na composição de sua personagem, a grandeza trágica do patriarca que se mantêm firme em seus propósitos e transmite credibilidade a essa problemática produção.

Um épico morno === “Colheita Amarga” estreia com ares de grande épico, mas, infelizmente, para diante de um roteiro fraco e indeciso entre contar uma história romântica ou os horrores do genocídio de Homolodor.

Resta a importante iniciativa da equipe de produção e, em especial do financiador do projeto, Ian Ihnatowycz, conhecido no Canadá por suas iniciativas filantrópicas. Porém, um bom filme, assim como qualquer outra obra artística, não se faz exclusivamente com boas intenções.

Assista ao trailer do filme:  

FICHA TÉCNICA

A COLHEITA AMARGA – (Título original: Bitter Harvest)

Distribuição: Califórnia Filmes – Assessoria de Imprensa: Sinny Assessoria e Comunicação

Direção: George Mendeluk / Roteiro: Richard Bachynsky-Hoover e George Mendeluk / Fotografia: Douglas Milsome / Produção: Chad Barager e Ian Ihnatowycz /// Elenco: Max Irons, Samantha Barks, Terence Stamp / Gênero: Drama, Romance / Duração: 1 hora e 43 minutos

Classificação indicativa: 14 anos / País: Canadá / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 24 de maio de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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