por Aguinaldo Gabarrão (*)

O cinema árabe a cada dia nos surpreende com histórias de grande impacto e, embora circunscritas à sua cultura, tornam-se universais por sua temática comum às sociedades: conflito de gerações, polarização política, preconceito com imigrantes e um estado de não pertencimento no próprio país em que se vive.

O filme Cafarnaum entra para essa galeria de filmes universais; já ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e concorre neste ano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. É o segundo ano consecutivo em que o cinema libanês recebe esta indicação. A primeira foi com o filme “O Insulto”, cuja crítica foi publicada em 11 de maio no DiárioZonaNortereveja aqui.

Dar voz às crianças ===  O menino Zain (Zain Al Rafeea) vive com irmãos e pais num cortiço emprestado por um pequeno comerciante. O menino é obrigado a cuidar dos irmãos e vender produtos nas ruas, uma vez que os pais estão sempre ausentes. Quando sua irmã de onze anos é forçada a se casar com o homem que lhes dá abrigo, o menino fica extremamente revoltado e decide deixar a família. Ele passa a viver nas ruas junto aos refugiados, na busca de uma vida digna.

A diretora Nadine Labaki, que também escreveu o roteiro e atua no filme, realiza uma obra de rara beleza. Não há o discurso fácil de buscar os culpados pelo estado de pobreza quase absoluta em que se encontram aquelas populações, mas ela traz ao foco as crianças desamparadas pelo egoísmo humano nas diversas possibilidades de leitura que se pode apreender.

Entrevistada pela “Reuters” por conta da indicação à estatueta em Hollywood, Labaki comentou: “… É uma grande vitória para cada um dos atores que estão… externalizando suas próprias lutas através do filme, sendo a voz dos sem voz, cada um com a sua própria história, sua própria luta e próprios problemas”.

Favelas de Beirute e do mundo ===  A produção de arte do filme não amenizou a situação de extrema pobreza do núcleo principal: seres invisíveis mergulhados numa metrópole fria e distante. A direção de fotografia coube ao alemão-libanês Christopher Aoun. Seu desenho de luz ressalta a aridez da cidade em que as personagens estão mergulhadas.

Nada ali remete a qualquer tentativa de falso embelezamento, optando o fotógrafo por cores “duras”, tons por vezes acinzentados, que ressaltam a indiferença da metrópole com os excluídos nas favelas de Beirute, assim como de qualquer outra parte do mundo; afinal, o inferno não tem geografia determinada.

Parque de diversões ===  O roteiro colaborativo coordenado por Labaki tem o mérito de apresentar as diversas camadas que levam crianças e imigrantes ao limite da resistência física e psicológica na luta por sua sobrevivência. Mas também consegue contrapor a essa situação deplorável momentos de grande delicadeza, como a cena em que o menino Zain, ao embarcar num ônibus, tem contato com o “Homem-Barata” e, a partir daí, ele conhece um parque de diversões, espécie de oásis no deserto, o refúgio em relação à duríssima realidade daquela criança.

Os atores, irretocáveis em seu desempenho, têm no elenco mirim o mesmo desempenho arrebatador. Alguns deles, recrutados pela diretora nas ruas de Beirute, dão o recado com tocante realismo. O pequeno Zain Al Rafeea, de grande beleza fotográfica, interpreta o garoto Zain na linha tênue entre a pureza da criança, típica da sua idade, com as nuances de um adulto, por conta da difícil vida que leva.

Resgate da esperança === A diretora Nadine Labaki, apesar de retratar os desdobramentos que o egoísmo humano é capaz de produzir contra crianças, não é, sob hipótese alguma, uma cineasta que traduz uma visão pessimista do mundo.

Ela resgata em seu filme a esperança na capacidade humana de mudar e dar sentido à vida. E também por isso, o filme Cafarnaum é uma bela joia do cinema árabe e libanês.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA
CAFARNAUM (Título original: Capharnaüm) ===  Distribuição: Sony Pictures

Direção: Nadine Labaki / Roteiro:  Nadine Labaki, Jihad Hojaily, Michelle Kerwany, Georges Khabbaz e Khaled Mouzanar / Direção de Fotografia: Christopher Aoun / Montagem: Konstantin Bock, Laure Gardette / Música e Produção: Khaled Mouzanar / Estúdio: Mooz Films / Elenco: Zain Al Rafeea,Yordanos Shiferaw, Boluwatife Treasure Bankole, Kawsar Al Haddad, Fadi Yousef, Haita ‘Cedra’ Izzam, Alaa Chouchnieh, Nadine Labaki, Elias Khoury, Nour El Husseini

Gênero: Drama / Duração: 2 horas e 3 minutos / Idioma: Árabe / Cor: colorido / Classificação indicativa: 16 anos / País: Líbano, França, EUA / Ano de Produção: 2018 – Lançamento: 17 de janeiro de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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