por Aguinaldo Gabarrão (*)

Realizar cinebiografias é sempre um grande desafio, pois a tendência de alguns produtores e roteiristas é atenuar as torpezas do biografado e ressaltar o que nele há de melhor, se é que exista algo de honroso para ser contado.

A cinebiografia de Freddie Mercury pode caminhar para qualquer uma dessas possibilidades, mas, independente das escolhas, é inegável que sua genialidade, grandiloquência e espírito libertário, estão presentes em “Bohemian Rhapsody”.

“Isso é a vida real?” ===  O filme já começa no pulsar da preparação de um grande show e, num rápido flashback a cidade de Londres dos anos 70 é recriada para contar a história de Farrokh Bulsara e sua família musical, o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, ambos da banda “Smile”. Depois, chegaria o baixista John Deacon. Dali pra frente, o que se conta é a trajetória meteórica do grupo “Queen”, nome pensado por Farrokh, que também se tornaria Freddie Mercury.

O relacionamento conflituoso com o pai e a tolerância da mãe recebe tratamento superficial da dupla de roteiristas. Eles preferem fixar-se no processo criativo do Queen e na inquietação artística de Mercury, que não se acomodam com a fama e lançam em 1975, a inovadora “Bohemian Rhapsody”, música presente no álbum “A Night at the Opera”. A partir deste ponto, ficção ou realidade, para fãs ou não, é um detalhe que não incomoda.

“Eu vejo a pequena silhueta de um homem” ===  Os roteiristas Anthony McCarten e Peter Morgan, preocuparam-se em apresentar a ascendência de Mercury sobre o grupo, mas também suas fragilidades e, por vezes, um profundo sentimento de egoísmo dele em relação à banda.

Por outro lado, o mesmo não se verifica em relação aos demais integrantes do Queen, apresentados pelos roteiristas como pouco afeitos às loucuras histriônicas da grande estrela do show business.

“Então você acha que pode me amar e me deixar morrer?” ===  A sexualidade de Mercury recebe no filme o mesmo tratamento ambíguo e, por vezes discreto, que ele tinha em suas entrevistas com a imprensa.

O artista vive movido por uma punção: extrair da vida o sentimento de ser amado. Mas onde encontrar o amor? Daí seu desespero de procurar não, necessariamente, um corpo feminino ou masculino, mas o necessário e importante afeto, que encontrou em raros momentos de sua vida: o primeiro com Mary Austin e, anos depois, ao lado de Jim Hutton.

“Não importa para onde o vento sopre” ===  O diretor Bryan Singer teve a incumbência de reunir um belo time de profissionais e deles obteve um filme eletrizante, com boas interpretações e, nos vinte minutos finais, proporciona ao público, uma meticulosa reconstituição do show da banda realizado em 1985, no evento beneficente Live Aid.

Por sua vez, a exuberante presença do ator Rami Malek, decisivo na composição frágil e, ao mesmo tempo potente de Fred Mercury, esbanja empatia e vitalidade nessa, que é considerada, a melhor apresentação do Queen. Dificilmente Malek deixará de figurar entre os indicados ao Oscar de Melhor Ator em 2019.

A música “Bohemian Rhapsody”, escrita por Freddie Mercury e que acertadamente é utilizada no título ao filme, soa como uma espécie de antevisão do músico em relação a sua própria vida: incomum e surpreendente.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

BOHEMIAN RHAPSODY — Distribuição: Fox Film do Brasil

Direção: Bryan Singer / Roteiro: Anthony McCarten, Peter Morgan / Direção de Fotografia: Newton Thomas Sigel / Designer de Produção: Aaron Haye / Direção de Arte: David Hindle, Hannah Moseley, Alice Sutton / Decoração de set: Lucy Howe, Anna Lynch-Robinson / Trilha Sonora e Montagem: John Ottman / Figurinos: Julian Day / Produção: Robert De Niro, Bryan Singer, Jim Beach, Richard Hewitt, Graham King, Brian May, Arnon Milchan, Denis O’Sullivan, Peter Oberth, Jane Rosenthal, Roger Taylor / Estúdios: GK Films, New Regency Pictures, Queen Films Ltd, Regency Enterprises, Tribeca Productions

Elenco: Rami Malek, Gwilym Lee, Lucy Boynton, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Tom Hollander, Allen Leech, Aaron McCusker, Mike Myers

Gênero: Drama, Cinebiografia / Duração: 2 horas e 14 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 14 anos / País: EUA / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 1 de novembro de 2018


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente descrição introdutória desta obra que retrata um personagem brilhante da música …bravo Gabarrão!

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