da Redação DiárioZonaNorte ==

Perder a audição é muito fácil e rápido.  A poluição sonora é um mal invisível e causa a morte das células auditivas de forma lenta e irreversível.   O som invade o espaço alheio sem pedir licença, percorre longas distâncias  e  não respeita muro ou parede.

A exposição prolongada e repetida a sons a partir de 85 decibéis (algo como o ruído de uma batedeira, um  liquidificador) agride o organismo e abala o equilíbrio emocional, já que o cérebro interpreta o barulho como sinal de perigo e como forma de defesa  contra o  suposto “perigo”, o corpo reage liberando reservas de açúcar e gordura para gerar energia como  defesa.   E em condições prolongadas de exposição ao barulho, o estoque de energia é esgotado e surgem cansaço, irritabilidade, estresse, ansiedade, insônia, falha de memória, falta de concentração, gripe e até doenças cardíacas, respiratórias, digestivas e mentais.

Acompanhou o raciocínio? Então responda rápido: como alguém suporta  viver assim?  É a pergunta que não quer calar de pelo menos uma centena de moradores  de parte da Casa Verde e do Bom Retiro, vizinhos ao Polo Cultural e Esportivo Grande Otelo, nome oficial do Sambódromo do Anhembi e agora Arena Anhembi, há muito tempo, que reclamam do barulho de eventos e festas que tem início no começo da noite de um dia e terminam na manhã de outro, onde o som ultrapassa 120 decibéis.

Calendário de eventos == Entre janeiro e julho de 2019, ocorreram pelo menos 13 eventos de grande porte, entre eles Carnaval, Bota Fora do Mackenzie, três edições da Arena n. 01 Brahma – durante os jogos da Seleção Brasileira na Copa América, Tardezinha Surreal – do cantor Thiaguinho, raves e festival de funk.   Até julho de 2020, outros  15 eventos já  estão agendados e ainda existem vagas para outros tantos.   Ah, não colocamos na conta os ensaios técnicos do Carnaval.

Lembramos que não estamos falando de feiras de negócios do Anhembi, que são realizadas tanto no Pavilhão das Exposições como no Palácio das Convenções (áreas fechadas) e normalmente ocorrem entre 10h e 22h e pouco alteram a rotina da região.

Lei de Zoneamento ==  O Anhembi é considerado um grande equipamento urbano e por isso, o local onde se encontra é uma Zona de Ocupação Especial (ZOE) e justamente por essa classificação, tem regras mais flexíveis para ruídos.

De acordo com o estipulado pelo Programa Silêncio Urbano (PSIU) o  limite é de 60 decibéis das 7h às 19h; de 55 decibéis das 19h às 22h; e de 50 decibéis de madrugada (até as 7 horas).  E o som gerado pelos eventos realizados no Sambódromo do Anhembi, de acordo com os moradores, sistematicamente  ultrapassam os limites.  Além da lei que exige o controle de ruídos dia e noite, o PSIU ainda determina que todo o estabelecimento que funcione após 1h tenha obrigatoriamente isolamento acústico. A SPTuris por ser a responsável pelo espaço tem o dever de cumprir o que é estipulado pelo PSIU e a Prefeitura de São Paulo  a obrigação de fiscalizar. Nem um, nem outro cumpre o seu papel.

Moradores criaram uma página no Facebook chamado Anhembi Queremos  Dormir  e conseguiu mais de mil assinaturas em uma petição pública exigindo o fim dos shows ao ar livre no Sambódromo – veja aqui, além de um grupo de WhatsApp onde trocam informações.

Autoriza e  não fiscaliza ===  A SPTuris, atual administradora do Complexo do Anhembi – que deverá passar para a iniciativa privada em agosto de 2019, por meio de um leilão promovido pela Prefeitura de São Paulo –  está ciente das diversas reclamações dos moradores e assiste a tudo passivamente, já que  autoriza os eventos e não fiscaliza o nível do som.

Claudia Fernandes, moradora de um edifício residencial  próximo a Totvs na região da Avenida  Brás Leme,  lembra que  “ao fazer uma reclamação para a ouvidoria do Anhembi Parque recebi uma resposta padrão, sem muitos esclarecimentos, dizendo apenas que estão estudando medidas pra diminuir o barulho. Estudando há quanto tempo??? Eu moro há mais de um ano e convivo com isso todos os finais de semanas. E vizinhos que moram aqui no bairro há bem mais tempo relatam que o problema é antigo”

Apartamento vira camarote == Claudia Fernandes captou ainda, no dia 09 de junho de 2019 por volta das 06h da manhã, um audio de uma das apresentações do evento Bota Fora do Mackenzie e o enviou à nossa redação.  Nele se ouve literalmente em “alto e bom som” tudo o que se passa na Arena Anhembi. É como se o apartamento dela — e de outra centena de pessoas — estivessem no próximos dos camarotes da Arena Anhembi. Um detalhe, seu apartamento está a mais de 3 quilômetros de distância do local.

O outro lado da Marginal ==  O problema também afeta os moradores dos  bairros do Bom Retiro e Barra Funda, com um agravante.  São mais pessoas atingidas, já que o adensamento demográfico é maior do que o da região da Brás Leme (principalmente pela limitação de ocupação de área  imposta pelo Campo de Marte).

A via sacra == Tanto os moradores da Casa Verde e Santana, como do Brás e Barra Funda, além de assinarem a petição online e contatarem a ouvidoria da SPTuris, denunciam os abusos no volume do som em todos os canais possíveis e imagináveis:  Central 156 da Prefeitura, Ouvidoria da Prefeitura,  Conselho Comunitário de Segurança-CONSEG do Bom Retiro (que atende Bom Retiro e Barra Funda) e o da Casa Verde (que contempla uma parte de Santana — a região do Anhembi).   O próximo passo é encaminhar ao Ministério Público do Meio Ambiente (já que se trata de poluição sonora), uma representação contra a Arena Anhembi.

SPTuris ===  Procurada pela redação do DiárioZonaNorte, a SPTuris afirmou por meio de nota que  “informa  as regras aos promotores de eventos e que  tem negociado estratégias para reduzir o barulho”.

Nesta 3a. feira (17 de agosto de 2019 – às 11h), estava em agenda reunião entre representantes do Ministério Público, SPTuris, moradores e representantes da Câmara Municipal dos Vereadores, para discutir o assunto.

Área Federal ==  Outro equipamento que é prejudicado pelo som da Arena Anhembi é o Núcleo do Hospital de Força Aérea de São Paulo (NuHFASP), prestes a completar 40 anos em 19 de setembro de 2019 e hoje dirigido interinamente pelo Coronel Médico Sidney Dionísio Toledo. O hospital está a poucos metros do Sambódromo, o que significa um som ao mesmo nível do local. E o índice recomendado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para um  “ambiente hospitalar” e de internação de adultos e crianças é rigoroso, devendo ser considerado tranquilo entre 35 e 40 decibéis — nestas zonas hospitalares é proibido “até de buzinar” — onde consta placas de advertências. O DiárioZonaNorte aguarda retorno da direção do Hospital da Aeronáutica.

Ironia ==  A mesma Prefeitura que se faz de “surda” sobre a poluição sonora gerada pelo Anhembi,  por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU), regulamentou através de um decreto, no dia 03 de maio de 2019,  a elaboração do Mapa do Ruído Urbano do Município.  Veja aqui A produção do mapa foi instituída como obrigatória em 2016 pela Lei 16.499 do Executivo e deve ser realizada por região.O município tem o prazo de até sete anos para concluí-los.  As áreas prioritárias serão definidas por um Grupo Gestor intersecretarial, sob coordenação da SMDU , composto pelas secretarias municipais de Mobilidade e TransportesVerde e Meio Ambiente,  Subprefeituras  e Inovação e Tecnologia.

De acordo com a SMDU, após finalizados, os Mapas do Ruído Urbano devem ser disponibilizados no portal GeoSampa, mapa digital da cidade, que reúne centenas de informações institucionais e serão utilizados na formatação de intervenções urbanas para melhorar a qualidade de vida dos munícipes de áreas afetadas pela poluição sonora.

Enquanto isto, em acertos e desacertos, os moradores continuam com o problema junto  aos ouvidos, sem os legítimos direitos de moradores. E o descanso e a qualidade de vida acabam ficando em “segundo plano”, sem medidas oficiais.


 

 

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