por Aguinaldo Gabarrão (*)

O escritor, poeta e jornalista Sándor Márai (1900 – 1989) viveu a glória e o ostracismo. Reconhecido como um dos maiores escritores da Hungria (atual Eslováquia), produziu mais de sessenta livros. Viveu na Europa no período da 1ª e 2ª guerras mundiais, presenciou seu país tornar-se comunista e suas obras serem proibidas. Morou em outros países e auto exilou-se nos Estados Unidos, onde daria fim a sua existência em 1989.

Não é possível, portanto, que sua obra deixasse de refletir a avassaladora experiência vivenciada por ele, traduzida em temas como a paixão, a honra, a amizade e o rancor, presentes no espetáculo “As Brasas”, de Duca Rachid e Felipe Lima, primeira adaptação da obra do autor húngaro para o teatro no Brasil.

“Castelo!” ===  Amigos desde a infância, Henrik (Herson Capri) e Konrad (Genésio de Barros), compartilharam suas vidas até a fase adulta. Após uma caçada nos arredores do castelo de Henrik, o amigo desaparece. Entre os dois, há um segredo que ronda esse dia e as lembranças de Kriztina (Nana Carneiro da Cunha) – mulher de Henrik e amiga de infância de Konrad. Após quatro décadas, Henrik, agora general, recebe uma carta do amigo informando estar de volta à cidade, levando-o a se preparar para esse tão aguardado reencontro.

A encenação de Pedro Brício não deixa escapar a boa sacada dos dramaturgos, logo no início do texto, ao destacar na fala de Konrad a palavra “castelo”, repetida algumas vezes para estabelecer o local da história pessoal de amizade e, ao mesmo tempo, relembrar as memórias mais doces e dolorosas vividas naquele ambiente de luxo.

“O tempo não nos rejuvenesceu” === O reencontro de dois homens, separados há décadas e amigos no passado, é marcado apenas e tão somente por um simples aperto de mão. Esse gesto prosaico, porém, extremamente significativo, apresenta o abismo que há entre ambos e o quanto ele se aprofundará ao longo do espetáculo.

A direção sutil de Brício conduz os intérpretes de maneira a que “as brasas” do título, tornam-se perfeitamente identificáveis em diversas camadas de mágoas e desilusões, potencializadas também pela iluminação que ressalta o estado interior das personagens.

Ambientação desconstruída === A cenografia dialoga de forma coerente com a proposta cênica. O castelo é ambientado com poucos elementos: colunatas feitas com lona plástica dão efeito sofisticado. Blocos de tubos e neons, apesar do movimento irregular, ganham leituras variadas: são fragmentos da memória, resgatados paulatinamente no jogo de acerto de contas entre ambos. O conjunto transmite uma insuportável sensação de vazio.

E Kriztina, emoldurada em plano alto na cenografia, é permanente presença, mas agora inatingível aos dois homens que por ela trocaram seus segredos.

“O que você quer com essa visita Konrad?” ===  A adaptação realizada por Duca Rachid e Felipe Lima opõe duas naturezas (Henrik e Konrad) de formações distintas, no enfrentamento de seus próprios dilemas. Por sua vez o que move a amizade de ambos, antes e depois de Kriztina, vai do suposto amor sacrificial a uma espécie de erotização do poder, dedicado ao jogo de sedução de dois homens que amam mais a si mesmos, do que a uma mulher.

Os atores Herson Capri e Genésio de Barros realizam o enfrentamento das personagens com grande competência. Há no desempenho de ambos a dúvida constante de suas reais intenções: o que se diz, não é o que se faz. E este duelo permanente é povoado pela imagem idealizada de Kriztina, na atuação segura da violoncelista Nana Carneiro da Cunha, que ainda empresta a sua bela voz e compõe o clima adequado para o acerto de contas entre os “amigos”.


FICHA TÉCNICA

  • As Brasas: obra original do escritor húngaro Sándor Márai
  • Idealização: Duca Rachid e Felipe Lima
  • Dramaturgia: Duca Rachid e Julio Fischer, com colaboração de Pedro Brício
  • Direção: Pedro Brício
  • Diretor assistente: Michel Blois
  • Elenco: Herson Capri, Genézio de Barros e Nana Carneiro da Cunha (violoncelista)
  • Cenógrafa: Bia Junqueira
  • Direção Musical e Música Original: Marcelo Alonso Neves
  • Figurinista: Marina Franco
  • Iluminador: Renato Machado
  • Instrutor de esgrima: Gaspar Filho
  • Projeto Gráfico: Gabi Rocha
  • Assessoria de imprensa: Paula Catunda e Catharina  Rocha
  • Fotos: Leo Aversa
  • Direção de Produção: Amanda Menezes
  • Coordenação Geral: Maria Angela Menezes
  • Produção executiva: Carla Mullulo
  • Produção: Tema Eventos Culturais
  • Realização: Sevenx Produções Artísticas

SERVIÇO

AS BRASAS

  • Onde: Teatro Sesc Santana – Avenida Luiz Dumont Villares, 579 – Santana.
  • Quando: 29 de setembro a 4 de novembro. 6ª feira e sábado, às 21h; domingo, às 18h.
  • Duração: 70 minutos.
  • Recomendação etária: a partir de 12 anos. Gênero: drama.
  • Ingressos: R$ 9,00 (credencial plena), R$ 15,00 (meia), R$30,00 (inteira).
  • Como chegar: Metrô Jardim São Paulo Ayrton Senna – 850m. Metrô Parada Inglesa -1.200m. Terminal de ônibus (metrô Santana) – linha Vila Nova Galvão (2025-10).
  • Estacionamento Sesc: R$12,00 a primeira hora e R$ 3,00 a hora adicional – desconto para credenciados.
  • Acesso para deficientes / Ar condicionado.
  • Funcionamento da bilheteria do Sesc Santana: de 3ª a 6ª feira, das 9h às 21h, aos sábados, das 10h às 21h, e aos domingos e feriados, das 10h às 18h45. Aceitam-se cheque, cartões de crédito (Visa, Mastercard e Diners Club International) e débito (Visa Electron, Mastercard Electronic, Maestro, Redeshop e Cheque Eletrônico). Ingressos podem ser adquiridos em todas as unidades do Sesc.
  • Para informações sobre outras programações ligue 0800-118220 ou acesse o portal sescsp.org.br

(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

CN Institucional

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora