por Aguinaldo Gabarrão (*)

=== Um álbum com fotografias dos últimos dez anos pode trazer percepções curiosas quanto às mudanças que se processam na vida pessoal e familiar. Mas, assistir ao filme Alguma Coisa Assim é servir-se desse mesmo álbum, mas dar a ele a dimensão que o cinema imagético de Esmir Filho e Mariana Bastos permite: mergulhar para dentro de si e ao voltar à superfície descobrir que, além do mundo, algo mudou radicalmente dentro de nós.

Caio (André Antunes) e Mari (Caroline Abras), dois adolescentes, saem à noite pelas ruas de São Paulo em busca de diversão. Entre sons e silêncios, descobrem mais sobre si mesmos. Ao longo de dez anos, suas vidas transitam em lugares diferentes, na busca de sonhos, entre dores e delícias, na plenitude de suas vidas.

Descobertas === A engenhosidade do roteiro está na sacada correta ao utilizar dois curtas-metragens, produzidos, respectivamente, em 2006 (Alguma Coisa Assim – prêmio melhor roteiro em Cannes) e outro em 2013, que serviram de baliza para a produção do longa-metragem de mesmo título. O primeiro curta contava as descobertas pessoais de Caio e Mari, dois adolescentes, na região da Rua Augusta. O segundo curta apresentava os mesmos personagens mais amadurecidos e com outras necessidades afetivas.

A ótima receptividade de público e crítica estimulou produtores e elenco a embarcarem neste novo processo: produzir o filme e contar a vida desses jovens, agora com 28 anos, na cidade de Berlin, na Alemanha, mantendo os mesmos atores que trabalharam nos dois curtas.

A passagem do tempo === A maneira como a produção optou em alinhavar os dois curtas com as cenas contemporâneas dos personagens, deu organicidade ao filme. Nada ali está em excesso e tem-se a percepção, de que a vida de Caio e Mari no passado, é uma espécie de documentário, que cessa em alguns momentos para focar na vida deles na Berlin de 2016.

O corpo, a voz, o olhar, as brincadeiras da adolescência, guardam o viço entre os grandes amigos, mas agora transmutado em dois adultos que se redescobrem no sentimento que um, inconscientemente, nutre pelo outro.

Sexualidade, família e aborto === A descoberta sexual, conceitos do que se entende por família e questões sobre o aborto perpassam pela história dos jovens e daqueles com os quais eles se relacionam. Porém, em momento algum os personagens tornam-se vozes ocultas dos roteiristas Esmir e Carolina. Esses assuntos da forma como são apresentados, tornam-se um convite à fruição do público.

Outro aspecto a ser destacado é a fluidez dos diálogos que cabem corretamente na embocadura dos atores e ganham verossimilhança e profundidade.

Imagens síntese ===  O esmero na composição da luz e enquadramentos é dividido entre o diretor de fotografia Juan Sarmiento G. (Berlim) e Marcelo Trotta (São Paulo). O trabalho de ambos permitiu “ler” nas imagens o pulsar interior das descobertas e dilemas das personagens. Por sua vez os efeitos sonoros com ruídos de construção, integrados a algumas dessas belas imagens, cria lugares de desconforto para Caio e Mari.

A montagem precisa de Caroline Leone, em passagens e flashbacks absolutamente integrados à linha de tempo, mantém o ritmo nervoso da câmera na balada em 2006, passando pela ótima sequencia do supermercado – de metáforas inteligentes – até chegar à Berlin em construção e aos planos que pontuam a necessária introspecção de Caio e, principalmente de Mari.

A intensidade no olhar === É uma grata surpresa observar o amadurecimento dos atores Caroline Abras e André Antunes na condução de seus papéis ao longo dos dez anos em que os curtas e longa-metragem foram produzidos. O fio condutor que mantém o viço daqueles adolescentes está vivo nos dois adultos, porém, agora com o peso das vivências acumuladas.

Os diretores Esmir Filho e Mariana Bastos sabem explorar o potencial expressivo do olhar de Caroline Abras em closes longos, difíceis de serem sustentados, mas que se tornam um exercício bem sucedido de introspecção da atriz para a sua personagem Mari.

Por tudo isso, Alguma Coisa Assim é um belo filme: captura o público pela estética das imagens, diverte sem exageros, emociona sem pieguices e provoca reflexões na medida certa.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

ALGUMA COISA ASSIM  –  Distribuição: Vitrine Filmes

Direção e Roteiro: Esmir Filho e Mariana Bastos / Direção de Fotografia: Juan Sarmiento G. (Berlim), Marcelo Trotta (São Paulo) / Trilha Sonora: Michael Brook / Montagem: Caroline Leone / Direção de Som:  Martín Grignaschi / Produção: Esmir Filho, Thereza Menezes e Fernando Sapelli / Coprodução: Jelena Goldbach e CANAL BRASIL / Direção de Arte: Sandra Fink (Berlim), Marcelo Escañuela (São Paulo) / Figurino: Juliana Zanetti / Maria Barbalho (São Paulo) Renata Gaspar / Sandra Fink (Berlim) / Trilha Sonora Original: Lucas Santtana e Fabio Pinczowski / Trilha Adicional: Luiz Macedo e João Maia

Elenco: Caroline Abras, André Antunes, Clemens Schick, Juliane Elting, Knut Berger e Participação Afetiva Lígia Cortez e Vera Holtz

Gênero: / Duração: 1 hora e 20 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 12 anos / País: Brasil e Alemanha / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 26 de julho de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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