por Aguinaldo Gabarrão (*) === 

A diretora Gabriela Amaral Almeida fez uma escolha muito clara em relação às histórias que deseja contar e os gêneros que dão suporte para a construção do seu olhar crítico da sociedade e da psique humana.

Em seu primeiro longa-metragem, “O Animal Cordial” (2018) — leia aqui a crítica do DiárioZonaNorte —- a diretora fez o seu “batismo de fogo”. A boa história com ótimas personagens convenceu e rendeu elogios. E, com o “A Sombra do Pai”, ela aperfeiçoa a forma em que utiliza o realismo, no formato de um drama, com boas pinceladas de terror e elementos do universo fantástico (imaginário).

Difícil relacionamento ===  A menina Dalva (Nina Medeiros), mora com Jorge (Júlio Machado), homem solitário e introspectivo, e a tia Cristina (Luciana Paes), responsável por cuidar da casa e da menina desde a morte da cunhada. Quando Cristina deixa a casa do irmão para se casar, pai e filha precisam enfrentar a distância que os separa, mas o sobrenatural passa a conviver mais de perto com ambos, trazendo conseqüências inusitadas para aquela família.

No roteiro escrito pela diretora, a relação entre pai e filha praticamente inexiste. E esta distância se aprofunda ainda mais quando Jorge, um pedreiro da construção civil, sente-se deslocado em sua própria casa. Ele, com sua brutalidade disfarçada oprime a filha, que por sua vez, apega-se cada vez mais à lembrança da falecida mãe, chamando-a de volta.

Nesta fuga da realidade, a menina demonstra um incomum prazer em assistir filmes de terror, no que a diretora aproveita, talvez, para fazer a sua homenagem a filmes clássicos, como Night of the Living Dead (A Noite dos Mortos Vivos), clássico de 1968.

Feridas da alma ===  No trabalho Jorge sofre um pequeno acidente e machuca as costas. A partir daí, a ferida, além de não cicatrizar, aumenta na razão direta em que o pedreiro se vê envolvido com situações estressantes: estranhíssimas alucinações no trabalho; o casamento da irmã, esteio da casa; a perda do seu melhor amigo.

Soma-se a esse estado de coisas, o fato dele não saber elaborar o luto quanto à perda da esposa. Assim, a ferida nas costas se amplia em seu corpo e, este aspecto fantástico e terrível, bem conduzido no roteiro, expressa os imperceptíveis traumas do inconsciente que, lentamente cobram sua fatura.

Entre a realidade e a fantasia === Até a metade da história, o teorema ao qual a diretora convida o público a se envolver, é absolutamente interessante. As relações da menina com a espiritualidade são reais ou fruto da sua imaginação super excitada? O imaginário, no roteiro de Gabriela Almeida, permite acesso a geografias mentais muito além do comezinho das coisas banais.

Mas este recurso, em excesso, acaba por ressaltar o exercício estético da diretora, em detrimento da trama, e a torna em alguns momentos irregular, sem suporte nas atitudes das personagens bem construídas no roteiro. Exemplo é a personagem Cristina – a ótima Luciana Paes – tia da menina, que norteia a história sem participar de forma mais conclusiva do emaranhado emocional entre pai e filha.

Igualmente a personagem Abigail (Clara Moura), que acessa o mesmo universo sobrenatural de Dalva, tem atitudes que perdem sentido à medida que não ajudam na compreensão desta conexão de Dalva com o supranormal. A própria figura da mãe, referência mítica evocada pela filha, tem sua relevância enfraquecida no clímax da trama e em sua conclusão.

Parceiros no terror === O bom elenco conta com Júlio Machado, ator centrado. Sua expressão forte contrasta com a fragilidade que a personagem precisa esconder de si mesma.  A pequena Nina Medeiros é um achado. Não há um close dela que seja desperdiçado.

O casting conta ainda com intérpretes que participaram de outros filmes do gênero terror ou subjacente ao sobrenatural. Eduardo Gomes e Luciana Paes, parceiros em Sinfonia da Necrópole (2014) da diretora Juliana Rojas, trabalharam também no filme “O Animal Cordial”.  Por sua vez, Rodrigo Teixeira, produtor de peso (A Bruxa), assina a produção dos dois longas-metragens de Gabriela Amaral.

Esta parceria, importante e necessária, permite que a diretora desenvolva seus projetos voltados para um gênero que, apesar de ser visitado de maneira mais freqüente por cineastas brasileiros nestes últimos anos, não encontra a coerência propositiva de Gabriela Amaral.

Onde a luz não penetra === O terror como gênero narrativo explora não só os nossos medos guardados no inconsciente, mas também o que circunda os nossos sentidos materiais, de percepção da realidade.

E “A Sombra do Pai” guarda no próprio título o sentido de coisas opostas, pois o pai carrega consigo a sua sombra: o estigma de travar uma batalha contra seus medos e frustrações.

Assista ao trailer do filme:


FICHA TÉCNICA

A SOMBRA DO PAI ==  Distribuição: Pandora Filmes

Direção e Roteiro: Gabriela Amaral Almeida / Direção de Fotografia: Bárbara Álvarez / Direção de Arte: Valdy Lopes Jn. / Montador: Karen Akerman / Trilha Sonora: Rafael Cavalcanti  / Produção: Acere / Coprodução: RT Features  / Produção: Rodrigo Sarti Werthein, Rune Tavares e Rodrigo Teixeira / Produção Executiva: Rodrigo Sarti Werthein e Rune Tavares / Elenco: Júlio Machado, Nina Medeiros, Luciana Paes, Rafael Raposo, Eduardo Gomes, Dinho Lima Flor, Caio Juliano, Clara Moura

Gênero: Drama, Fantasia, Terror / Duração: 1 hora e 32 minutos / Idioma: Português / Cor: colorido / Classificação indicativa: 16 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2018 == Lançamento: 2 de maio de 2019

“A SOMBRA DO PAI” tem distribuição no Brasil da Pandora Filmes e a partir de 16 de maio estará também em São Paulo e mais 23 cidades da Rede Cinépolis.


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