por Aguinaldo Gabarrão (*)

O gênero terror no cinema possui diversas modalidades ou subgêneros. Um deles são os filmes sobre zumbis, seres mortos-vivos que adoram degustar um ser humano.

O melhor exemplo, embora não seja o primeiro filme sobre zumbis, é Night of The Living Dead (A Noite dos Mortos Vivos), dirigido por George Romero (1940 – 2017), com roteiro de John A. Russo. Essa produção impactante de 1968 estabeleceu os fundamentos para filmes de terror dessa natureza.

E A Noite Devorou o Mundo é um filme que se utiliza de fórmulas consagradas, presentes no clássico dos anos 60, e consegue a façanha de renovar o formato ao apresentar um problema contemporâneo e existencial: a solidão do ser humano.

Roteiro adaptado ===  Ao acordar de manhã num apartamento onde, na véspera, houve uma grande festa, Sam (Anders Danielsen Lie) deve se render à evidência: ele está sozinho e mortos-vivos invadiram as ruas de Paris. Agora ele vai ter que se proteger para continuar vivo.

O roteiro foi adaptado a partir do livro homônimo de Pit Agarmen, pelo trio de roteiristas Guillaume Lemans, Jérémie Guez e Dominique Rocher, este último diretor estreante e que acerta na condução do clima do filme e atores.

“Eu não sou normal” === Não há explicações exaustivas quanto aos motivos que levaram pessoas a se transformarem em zumbis e, tomarem de assalto, a cidade de Paris. O fato se apresenta e o foco principal está na maneira como o músico Sam vai reagir diante desse cenário de horror.

É perceptível desde o início a personalidade introspectiva e pouco afeita dele às regras de sociabilidade. Sem poder sair do prédio antigo, cercado por zumbis letárgicos e perigosos, ele precisa encontrar maneiras para sobreviver naquele lugar repleto de móveis e objetos de outras pessoas, com os quais ele se relaciona e que acaba por ampliar sua sensação de isolamento, a ponto dele próprio questionar-se quanto a sua sanidade.

“Há cura ou estamos todos condenados?” === Limitado em sua mobilidade – só consegue ver a cidade do alto do telhado – Sam tornar-se uma espécie de Robson Crusoé: altera hábitos, roupas, seu visual e comportamento para adaptar-se à “ilha” em que se encontra. E, assim como o personagem do escritor Daniel Defoe, compartilha o tempo com Alfred, um zumbi (Denis Lavant) que fica preso no elevador do prédio.

O diretor Dominique Rocher usa dessa relação entre Sam e o Zumbi para discutir os limites a que um ser humano pode chegar, quando é pressionado ao confinamento. E, aquela multidão de zumbis, torna-se apenas um detalhe para ressaltar aos olhos do público os reais motivos para o isolamento de Sam: a dificuldade dele em relacionar-se com outros humanos.

Onde habita o terror === A história reserva ainda a entrada de Sarah, que na trama irá desestruturar as crenças limitantes de Sam, o misantropo (pessoa que não se enquadra em grupos sociais).

A direção de fotografia de Jordane Chouzenoux, evita ao máximo o uso de enquadramentos e iluminação soturna para ambientar o clima de horror. Os zumbis estão às claras, sem qualquer tipo de artifício de pós-produção e a trilha sonora minimalista de David Gubitsch, instala a percepção sensorial de mal estar permanente.

O diretor Dominique Rocher conta ainda com o bom desempenho dos atores Anders Danielsen Lie (Sam) e Denis Lavant (Alfred, o zumbi), ambos firmes na proposta da direção: apresentar o terror sob o viés de criaturas deslocadas em seu meio social, cuja existência parece não ter mais sentido.

Assista ao trailer do filme:

A NOITE DEVOROU O MUNDO
 (Título original: La Nuit a Dévoré Le Monde)  ===  Distribuição: Califórnia Filmes

Direção: Dominique Rocher / Roteiro: Guillaume Lemans, Jérémie Guez e Dominique Rocher / Fotografia: Jordane Chouzenoux / Trilha Sonora: David Gubitsch Montagem: Isabelle Manquillet / Produção: Carole Scotta

Gênero: terror / Duração: 1 hora e 33 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 16 anos / País: França / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 05 de Julho de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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