por Aguinaldo Gabarrão (*) === 

As tramóias dos bastidores do poder; intrigas subjacentes; pitadas de sexo e a vida desgraçada de uma rainha no século XVIII dão ao filme A Favorita dez possibilidades para ganhar uma estatueta no Oscar 2019, que será transmitido pela TV aberta neste domingo (24/02/2019).

Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Anne (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes a oportunidade única.

Uma rainha pouco conhecida ===  Inspirada na história de Anne (1665 – 1714), primeira rainha da Grã-Bretanha (a partir da união da Escócia com a Inglaterra), o roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara traz à tela uma rainha pouco conhecida, porém não se prende ao rigor histórico do seu curto reinado (1702 – 1714), ou a sua relevância entre os muitos monarcas que ocuparam o trono inglês.

Os roteiristas optaram por um recorte e apresentam a Duquesa de Marlborough consolidada no poder, dividindo-se entre o papel de amante da rainha, conselheira e chefe de Estado. E o ponto de virada começa a ser desenhado logo no início, com a chegada de Abigail, que está numa situação financeira e social calamitosa.

Amor x Poder ===  Á parte o fato de não haver uma comprovação se a rainha era realmente lésbica, um dos pontos interessantes do roteiro é apresentar a relação intrínseca entre o amor e o exercício do poder.

O tesão da solitária rainha, atacada por graves crises de gota, é ter o carinho e a companhia, aparentemente desinteressada, da Duquesa. Esta última, por sua vez, se excita com o poder que a ela é conferido. É uma relação de simbiose, onde as duas podem ou não ser beneficiadas. E o roteiro explora bem essas possibilidades.

E neste momento, Abigail, movida pela necessidade de ascensão, é o corpo estranho que desestrutura a associação íntima das amantes.

Homens e ratos ===  Ao roteiro bem estruturado, soma-se o talento do diretor Yorgos Lanthimos, (O Lagosta – 2015 e O Sacrifício do Cervo Sagrado – 2017 (leia a crítica). Ele não tem medo de experimentar novas possibilidades no set, e se por vezes erra o alvo, neste filme, ele acerta na mosca.

A ousadia na ambientação do palácio e de outros cenários, mergulhados em sombras, sempre com o teto à mostra, tem na direção de fotografia Robbie Ryan o uso de lentes grande angular, o que amplia o clima de aprisionamento claustrofóbico. No quarto da rainha há sobreposições de peças, tapeçarias, constituindo-se num caos, como a vida da monarca.

Os homens usam maquiagem carregada e ganham feições caricaturais e, por vezes, o recurso do slow motion (câmera lenta), associado à trilha sonora, pontua o estado de deformação do caráter daquele grupo masculino, mais parecendo um amontoado de ratos submissos à força feminina.

Interpretações vigorosas ===  O trio Rachel Weisz, Olivia Colman e Emma Stone sustentam de forma vigorosa as suas personagens. Mas Colman, no papel da infortunada rainha Anne, é a expressão mais bem definida das diversas camadas que sua personagem pode oferecer, ao apresentá-la entre a fragilidade e a necessária fortaleza no exercício do poder, em oposição aos sentimentos de amor que a realeza e a vida não lhe deram o direito de viver.

A Favorita foge à métrica Hollywoodiana e o diretor Yorgos Lanthimos, ao usar do estranhamento e do inusitado, firma um estilo autoral e sua visão de mundo.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

A FAVORITA (Título original: The Favourite)  –  Distribuição:  Fox Film do Brasil

Direção: Yorgos Lanthimos / Roteiro:  Deborah Davis, Tony McNamara / Direção de Fotografia: Robbie Ryan / Montagem: Yorgos Mavropsaridis / Design de Produção: / Trilha Sonora: Alexis Bennett / Produção: / Estúdio: Element Pictures, Film4, Scarlet Films, Waypoint Entertainment

Elenco: Rachel Weisz, Olivia Colman, Emma Stone, Nicholas Hoult, Joe Alwyn, Mark Gatiss,  Timothy Innes, Jenny Rainsford, Basil Eidenbenz, Dougall, Basil Eidenbenz, James Smith

Gênero: Drama / Duração: 1 hora e 59 minutos / Idioma: Inglês / Cor: colorido / Classificação indicativa: 14 anos / País: Irlanda, Reino Unido, EUA / Ano de Produção: 2018


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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