por Aguinaldo Gabarrão (*) === 

A frase “atrás de todo grande homem existe sempre uma grande mulher” é um desses ditos populares que, apesar de surrado e deplorável, ainda encontra quem o pronuncie com orgulho, seja homem ou, pasmem, uma mulher.

Você, leitor do DiárioZonaNorte, que costuma ler esta coluna, já percebe pela introdução feita que o filme A Esposa lida exatamente com essa excrescência: dar ao homem o poder da voz, do comando, dos louros da vitória e reservar para a mulher o papel digno e resignado de segurar todas as barras para o maridão brilhar.

A trama === Durante 40 anos de casamento, Joan (Glenn Close) sacrificou seu talento, sonhos e ambições, para apoiar o carismático Joe (Jonathan Pryce) e sua carreira literária. Ela o acompanha para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Mas é assediada por um jornalista (Christian Slater) ávido por escrever uma escandalosa biografia do escritor e trazer àtona os seus segredos.

O roteiro foi adaptado da obra de Meg Wolitzer e constrói com muita coerência e recursos pontuais de flashbacks a vida do casal. E logo, se revela algumas facetas pouco nobres de Joe e a postura tímida e insegura de Joan. Por tabela, há os problemas do pai com o filho, candidato a escritor, interpretado por Max Irons, de desempenho inconsistente e sem brilho.

Fogueira das vaidades === As roteiristas Jane Anderson e Meg Wolitzer não se limitam a apresentar a figura egocêntrica e, ao mesmo tempo, sedutora de Joe. Ao mostrar os bastidores do Prêmio Nobel, a alfinetada é direcionada a outros ganhadores do prêmio, homens absolutamente empavonados, com suas esposas a tiracolo.

Joan é mais uma “esposa” de premiado e, neste ambiente de pompa, intelectualidade e também de frivolidades, a atitude sempre comedida dela começa a ceder espaço para uma revolta muda, que ampliará sua percepção de ter errado ao deixar de lado os seus sonhos ao longo do seu casamento.

Interpretações em grande estilo === O ator Jonathan Pryce (Piratas do Caribe e Game of Thrones), compõe sua personagem com naturalidade desconcertante. Não há excessos e, no jogo de gestos e olhares, revela-se o que há de mais mesquinho em suas atitudes.

A atriz Glenn Glose (As Ligações Perigosas e Um Canto de Esperança), ganhou o Globo de Ouro por este desempenho e caminha para sua sétima indicação ao Oscar. Seu trabalho absolutamente sutil e delicado transita entre a timidez da mulher que foge dos holofotes, e paradoxalmente, se sente recompensada por ver a glória obtida pelo marido. É muito provável que dessa vez a Academia dê a ela o Oscar de Melhor Atriz. Ela está soberba.

O diretor sueco Björn Runge tem todos os méritos por saber conduzir a trama no mesmo pulsar descompassado da vida do casal, em que duas vidas fazem da mentira o seu alimento por 40 anos. A Esposa é um filme provocador, tocante e necessário.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

A ESPOSA (Título original: The Wife) = Distribuição: Pandora Filmes e Alpha Filmes

Direção: Björn Runge / Roteiro:  Jane Anderson e Meg Wolitzer / Direção de Fotografia: Ulf Brantas / Designer de produção: Mark Leese / Direção de Arte: Caroline Grebbell, Paul Gustavsson, Martin McNee / Figurino: Trisha Biggar / Montagem: Lena Runge / Trilha Sonora: Jocelyn Pook / Produção: Christine Linnea Andersen, Jane Anderson, Gero Bauknecht, Georgia Bayliff, Nina Bisgaard, Claudia Bluemhuber, Mark Cooper, Florian Dargel, Tomas Eskilsson, Steve Golin, Hugo Grumbar / Estúdio: Silver Reel, Meta Film, Anonymous Content, Tempo Productions Limited, Embankment Films

Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Elizabeth McGovern

Gênero: drama / Duração: 1 hora e 40 minutos / Idioma: inglês /Cor: colorido

Classificação indicativa: 12 anos / País: Reino Unido, Suécia e EUA / Ano de Produção: 2017

Lançamento: estreou nesta 5ª feira (10/01/2019) em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Florianópolis, Porto Alegre, Santos e Ribeirão Preto


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

 

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