por Aguinaldo Gabarrão (*)

Baseado no livro de mesmo nome, que por sua vez se inspirou na controversa e verdadeira história de Melita Norwood, cientista britânica e funcionária pública, o filme A Espiã Vermelha traz de forma romanceada os conflitos que levaram Norwood a compartilhar com a URSS os segredos da bomba atômica.

O ano é 2000 e Joan Stanley (Judi Dench) é uma senhora aposentada morando nos subúrbios de Londres na virada do milênio. Sua vida tranquila é subitamente interrompida quando ela é presa pelo Serviço de Inteligência Britânico, acusada de ter fornecido informações durante a Segunda Grande Mundial, que ajudaram a União Soviética a construir sua bomba atômica.

Roteiro novelesco ===  A roteirista Lindsay Shapero não consegue fazer mais do que o próprio livro oferece: a história romântica da moça recatada e inteligente que se apaixona pelo bonitão comunista. Assim, a novela açucarada se sobrepõe ao drama pessoal e fascinante da cientista: trair seu próprio país em prol de uma utopia de igualdade de forças, entre duas grandes potencias: EUA e a URSS.

Dessa forma, a paz estaria garantida e evitaria que outras cidades não tivessem o mesmo destino de Hiroshima e Nagasaki. Essa terrível decisão pessoal, no entanto, torna-se apenas o pano de fundo da trama.

O recurso de flashbacks é usado para mostrar de que forma a brilhante cientista, no final dos anos 30, constrói paulatinamente a sua convicção, em contraponto com a personagem, já idosa, sendo interrogada na atualidade. Porém, as idas e vindas do presente para o passado, em nada contribuem para tornar a história dinâmica e, muito menos ajudam a criar uma curva de tensão crescente até a decisão da personagem no passado e no presente.

Mãe x filho ===  Outra história que poderia render um bom encaminhamento no roteiro é o conflito do filho ao descobrir o passado da mãe. Contudo, essa possibilidade patina durante o filme e, perde-se aí, outra boa alternativa para o desenvolvimento da trama.

Mas nem tudo está perdido. Há sequencias em que é demonstrada a misoginia escancarada do meio acadêmico masculino contra a mulher, como se esta não tivesse a capacidade intelectiva para a academia e a ciência.

A atriz faz a diferença ===  A atriz Judi Dench tem atuação convincente e sensível. O dilema de sua personagem, que beira o limite entre as convicções pessoais e o respeito aos valores do Estado, se apresenta com toda força e dignidade. É onde, afinal, o filme ganha em importância.

Mas é só. E nem a caprichada produção de época e a fotografia competente de Zac Nicholson conseguem suprir a deficiências do roteiro.


Assista ao trailer do filme:


FICHA TÉCNICA

A ESPIÃ VERMELHA (Título original: Red Joan) –  Distribuição: Califórnia Filmes

Direção: Trevor Nunn / Roteiro: Lindsay Shapero / Direção de Fotografia: Zac Nicholson / Trilha Sonora: George Fenton / Produção: Alice Dawson, David Parfitt

Elenco: Judi Dench, Sophie Cookson, Tom Hughes

Gênero: Biografia, Drama, Suspense / Duração: 1 hora e 50 minutos / Idioma: inglês / Cor: colorido / Classificação indicativa: 14 anos / País: Reino Unido e Irlanda do Norte / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 16 de maio de 2019


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