por Aguinaldo Gabarrão (*)

Acreditar em aparições aparentemente inexplicáveis de santos ou espíritos, por força da fé, é algo inconcebível para a razão se não houver uma comprovação científica. O filme A Aparição tem o mérito de mexer nesse vespeiro sem querer forçar o público à crença cega ou a negação definitiva.

A perda do amigo ===  Jacques (Vincent Lindon) é um famoso jornalista, traumatizado pela perda de um amigo de profissão num conflito do Oriente Médio. Tempos depois ele recebe um misterioso telefonema do Vaticano, convidando-o a participar de uma comissão que investigará a veracidade das visões de Anna (Galatéa Bellugi), uma jovem noviça que afirma ter visto a Virgem Maria.

Um homem devastado pela dor da perda, frente a frente com a fé de uma jovem. Esta é a pedra de toque deste drama bem conduzido por Xavier Giannoli, diretor de outros seis filmes, entre eles “Quando Estou Amando” (2006) e “Marguerite” (2015), seus únicos filmes exibidos no Brasil.

Capítulos de uma investigação ===  O roteiro do diretor, escrito em parceria com Jacques Fieschi e Marcia Romano, cria um diário de bordo dessa jornada investigativa do jornalista, contada na forma de capítulos que sintetizam cada ponto chave da trama, opondo as descrenças de Jacques às suas descobertas.

A construção da narrativa deixa claro que os representantes da Igreja, pertencentes à comissão, agem movidos por um desejo paradoxal: preferem negar a possível verdade dos fatos para não correrem o risco de validar a farsa. Neste cenário de desconfiança pouco importa se a jovem Anna é objeto de manipulação, exposta em praça pública como uma “santinha”, tendo o rosto estampado em velas, cartazes, cartões e toda forma de exploração da fé.

Reflexões sobre a fé === O diretor Xavier Giannoli tem a habilidade de transferir a dúvida angustiante do cético Jacques para o público. Ao criar a ambientação mística e de culto à personalidade de Anna, carregada de ingredientes que sugerem a possibilidade da farsa, ele acrescenta outros elementos, que podem fortalecer a crença de que o evento da aparição pode ter realmente acontecido.

E, neste ponto, a pergunta se faz necessária: tudo realmente aconteceu tal como a jovem noviça contou? E a resposta, surpreendente, faz do filme A Aparição uma boa oportunidade para avaliarmos o quanto a fé e a razão, ao trilharem caminhos diferentes, podem se encontrar para responder às nossas dúvidas existenciais mais inquietantes.

Assista abaixo ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

A Aparição (Título original: L’Apparition) –  Distribuição: Mares Filmes

Direção: Xavier Giannoli / Roteiro: Xavier Giannoli, Jacques Fieschi e Marcia Romano / Direção de Fotografia: Eric Gautier / Direção de Arte: Anas Balawi / Trilha Sonora: Arvo Pärt e Georges Delerue / Montagem: Cyril Nakache / Produção: Conchita Airoldi, Emilien Bignon, Oliver Delbosc e Rula Nasser // Elenco: Vincent Lindon, Galatéa Bellugi, Patrick d’Assumção, Anatole Taubman, Elina Löwensohn, Claude Lévèque, Gérard Dessalles, Bruno Georis, Alicia Hava, Candice Bouchet.

  • Gênero: Drama / Duração: 2 horas e 17 minutos / Cor: colorido
  • Classificação indicativa: 14 anos / País: França / Ano de Produção: 2018
  • Lançamento: 9 de agosto de 2018 (Brasil)

(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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2 COMENTÁRIOS

  1. Olá Vander. Obrigado pelo seu retorno e considerações. De fato, a arte abre a possibilidade para outros entendimentos. Grande abraço!

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