por Aguinaldo Gabarrão (*)

Em 2010 a Tunísia foi o carro chefe de manifestações que varreram vários países do norte da África e do oriente médio. Crise econômica, desejo à liberdade de expressão, luta contra governos repressivos e cheios de privilégios, são alguns dos motivos que inflamaram as massas. Essa história não é de hoje.

Se esse evento realmente trouxe mudanças significativas a essas populações, é difícil afirmar. Mas, assistir ao filme A Amante instiga qualquer cidadão do mundo ocidental, a repensar o quanto o novo pode seduzir e, ao mesmo tempo provocar o sentimento contrário de repulsa diante da possibilidade da mudança.

Uma vida sem perspectivas === Hedi (Majd Mastoura) é um homem de 25 anos que não dá um passo sem o aval da mãe. Seguindo as tradições de sua cultura, a matriarca arranja um casamento para o filho. Porém, o rapaz é escalado para trabalhar em outra cidade e lá conhece e se apaixona pela vulcânica Rim (Ryam Ben Messaoud), de temperamento e vida bem diferentes do seu meio social. Agora ele tem que escolher qual deve ser o seu futuro.

A história simples, escrita e dirigida por Mohamed Ben Attia, rapidamente ambienta o público nesse universo sufocante em que Hedi se deixa dominar pela mãe e, de certo modo pelas tradições. Ele trabalha como representante comercial de uma concessionária de carros, mas seu maior prazer é desenhar. E as imagens que produz possuem um viés expressionista, que revela seu drama interior, sufocado pela falta de atitude e perspectiva.

“Sonhar é querer voar” === A trama não causa surpresa: Hedi vai se mostrar logo interessado por Rim. Mas, é nesse momento que o diretor Ben Attia, aproveita a história manjada do envolvimento de ambos para criar paralelos com a situação recente da Tunísia. A jovem tem o frescor do novo, é sedutora, quebra as regras estabelecidas, algo comparável com a ideia da Primavera Árabe, uma ruptura com o passado.

E dialeticamente, Bem Attia, introduz na relação do casal essa contradição do querer o novo, mas, ao mesmo tempo, temer pelo que ele pode representar: a necessidade da real mudança. E, esse sentimento fica claro na construção dos diálogos, simples na forma, mas de bom conteúdo. Num desses momentos, Hedi comenta o sonho de publicar seus desenhos e Rim responde: “… mas isso não é um sonho, é um projeto. Vá e faça! Sonho é querer voar”.

Prêmios impulsionam o filme ===  A produção coube a premiada dupla dos irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne (Palma de Ouro em Cannes com a direção de Rosetta 2009 e A Criança 2005).  O filme já faturou o Urso de Ouro do Festival de Berlim na categoria “Melhor Filme de Estreia” e o Urso de Prata de Melhor Ator para Majd Mastoura (Hedi).

A Amante pode até ser um filme que não dialogue de forma profunda com a cultura árabe, uma vez que o olhar europeu está fortemente presente na produção, mas nos permite conhecer minimamente um pouco desse universo tão fascinante e distante do nosso mundo ocidental.

Assista ao trailer do filme: 

FICHA TÉCNICA

A AMANTE – (Título original: Inhebek Hedi) —  Distribuição: Pandora Filmes

Direção e Roteiro: Mohamed Ben Attia / Fotografia: Frédéric Noirhomme / Trilha Sonora: Omar Aloulou Produção: Luc Dardenne e Jean Pierre Dardenne

Elenco: Majd Mastoura, Ryam Ben Messaoud, Sabah Bouzouita / Gênero: Drama Duração: 1 hora e 28 minutos

Classificação indicativa: 14 anos / País: Tunísia, Bélgica e França / Ano de Produção: 2016

Lançamento: 31 de maio de 2018 (Brasil)

(*) Aguinaldo Gabarrão foi convidado especial e participou em 29/05/2018 da pré-estreia do filme – sessão exclusiva no Cine Caixa Belas Artes, em São Paulo, com promoção do Instituto de Cultura Árabe (ICArabe), Pandora Filmes e O Estado de S.Paulo. Houve debate com Salem Nasser, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas e ex-presidente do ICArabe; e de Luiz Zanin, crítico de Cinema do jornal O Estado de S. Paulo. Divulgação/Assessoria de Imprensa: Foco 21 Assessoria e Sinny Assessoria.


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


 

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 


 

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